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Desperdício

Imagina que queres lançar um produto, feature, ideia ou campanha. Tu e a tua equipa trabalham com afinco nisso e, passado meses, quando lançam, para vossa surpresa, ninguém quer saber. As pessoas estão a borrifar-se para o que vocês fizeram. Além das vendas/downloads/awareness que não gera há todo o tempo e trabalho desperdiçado naqueles meses.

Pode haver alguma forma de evitar esse desperdício? De acordo com Eric Ries, autor do livro The Lean Startup, há.

Muitas das nossas ideias, quando pensamos em lançar algo, são suposições sobre aquilo que achamos que as pessoas vão querer. Suposições essas que estão toldadas pela nossa vivência, viéses cognitivos ou a bolha que nos rodeia. Achamos que os outros vão querer comprar x mas nós não somos os outros. A metodologia lean, que tem origem nas fábricas da Toyota nos anos 50, propõe receber feedback dos clientes o mais cedo possível de forma a obter “aprendizagens validadas” e fazer alterações o mais cedo possível. Quanto mais cedo o fizermos, menos tempo e dinheiro investimos, mais rápido nos aproximamos daquilo que o cliente realmente quer. Menos desperdício. Mais lean, magro, eficiente, o processo se torna.

Este livro tem muitas boas ideias mas há uma que eu adoro em particular. Agora, Sempre que tenho uma suposição sobre algo que necessite de um grande investimento de tempo ou dinheiro, já dou por mim a pensar: “que experiências poderia fazer, onde eu gaste o menos tempo e dinheiro possível, que me permitam perceber se esta suposição está correcta?”

Por exemplo: Uma empresa quer arriscar e lançar um novo produto. Como é que se sabe que as pessoas querem aquilo? Uma opção é criar o produto, trabalhar durante semanas na campanha promocional dele e esperar pelo dia de lançamento para descobrir. Meter os ovos todos no mesmo cesto, arriscar não vender e ter perdido tempo e dinheiro em vez de ter feito um que vendesse. A opção lean seria perguntar “que tipo de experiências posso fazer para descobrir se as pessoas querem este produto?”. E fazer aquilo que o Eric chama o ciclo build-measure-learn. Depois de aprender, com dados reais e não suposições, decidir se avançamos, ajustamos ou se mudamos de rumo.
Será que podemos criar um minimal viable product, a versão mais básica de um produto que permita completar o ciclo build-measure-learn, só para testar a reacção das pessoas a ele?
Será que podemos criar só uma landing page, sem o produto existir, onde as pessoas possam registar o seu interesse e, caso haja interesse, avançar para a criação do produto? Ou separar a base de dados de e-mail e fazer a/b testings, e ver a qual mockup do produto as pessoas reagem melhor, com métricas reais e não suposições?

Imaginemos que uma marca vai lançar uma campanha televisiva de centenas de milhares de euros. Esse anúncio vai ter um protagonista. Um actor ou figurante a quem depositam a confiança de criar uma ligação com o espectador. Entre toda a gente que o escolheu: director de casting, realizador, marca, como é que sabem que o figurante escolhido é o que vai gerar melhor reacção nas pessoas? É uma absoluta suposição. Será que se podia testar? Por exemplo, fazer um conjunto de ads no facebook, para uma mesma audiência, com uma versão visual básica da campanha, uma espécie de minimal viable campaign, em que a única coisa que muda é o figurante e ver a qual deles as pessoas reagem melhor? E quem diz o figurante diz as proprias ideias da campanha em si.

E este raciocínio tem-me surpreendido porque dou por mim a vê-lo em muito mais coisas. Será que um músico, em vez de ser ele a decidir que 12 músicas vão sair no disco, e investir tempo e dinheiro para gravar essas músicas em estúdio, pode lançar 40 músicas no youtube durante um ano, numa versão mais rudimentar, por exemplo só 30seg dele a tocar e filmado com o telemovel e, depois, vendo a reacção do público às 40, decidir quais são as 12 a gravar em estúdio e pôr no disco?

Será que eu, em vez de investir o tempo a fazer um vídeo e legendá-lo para depois descobrir que ninguém quer saber dele e que podia ter usado esses recursos para fazer outro, posso usar as stories do instagram para apresentar ao público uma versão mais rudimentar da ideia central do vídeo e ver a reacção deles? Ou mesmo publicar o texto antes numa plataforma, medir a reacção, e só depois investir o tempo na produção?

O The Lean Startup é um dos livros que mais me marcou. Há lá muito mais boas e diferentes ideias mas esta é uma das que dou por mim a aplicar mais na vida. Definir uma hipótese/suposição, testá-la, aprender, avançar, ajustar ou mudar.

Nota adicional e curiosa: segundo o Eric, perguntar às pessoas aquilo que elas querem não funciona tão bem quanto fazê-las tomar uma acção – por exemplo, registo, download ou utilização – porque, na maioria dos casos, as pessoas não sabem o que querem. Espero que tenham gostado. Até ao próximo vídeo.