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O fetiche de trabalhar muitas horas

Há uns anos tive uma entrevista de emprego em que o entrevistador disse que saiam várias vezes do escritório às 11 da noite. Que era o normal. Eu fiquei agradecido por ele ter dito isto logo na entrevista porque, mal ouvi aquilo, decidi logo que ali não iria trabalhar. Felizmente tinha alternativa e pude recusar. Eu sabia que eu não queria aquilo para a minha vida.

Na Web Summit 2018, o Alexis Ohanian, CEO do Reddit, disse que “esta ideia de que a menos de que estejas a sofrer, ‘grinding’, a trabalhar a todas as horas de todos os dias, não estás a trabalhar o suficiente, é das coisas mais tóxicas e perigosas no mundo da tecnologia neste momento”. O Alexis chamou-lhe Hustle Porn, o fetiche de trabalhar longas horas. Revelou ainda que, por causa do ritmo louco de trabalho a construir o Reddit, teve uma depressão.

Algo que achei curioso foi ele ter perguntado ao público da Web Summit se isto também acontecia na Europa. Se há coisa que nós portugueses conhecemos é isto. Porque mesmo que não o façamos por fetiche, fazemos por sentido de obrigação (ou mesmo por obrigação). Tenho amigos que saem do escritório às 20h, 23h ou até mesmo às duas da manhã em noites consecutivas, a começar às 9 no dia seguinte. Na área médica, direito ou publicidade. A quantidade de trabalho é tão grande que lhes é exigido que façam muito além do razoável. Aliado a isso somos também a geração a quem dizem constantemente a sorte que é termos trabalho.

Um estudo do University College London analisou 85,000 trabalhadores e encontrou uma correlação entre excesso de trabalho e o aparecimento de problemas cardiovasculares. Num estudo da Deco em Portugal, um terço dos inquiridos diz que o seu trabalho afecta negativamente a sua qualidade de vida. Um estudo de 2016, publicado na Acta Médica Portuguesa, diz que 47,8% dos profissionais de saúde portugueses estão em estado de burnout. Um estado de stress crónico que leva à exaustão física e emocional. Geralmente envolve insónias, ansiedade, depressão, pessimismo e apatia, entre vários outros sintomas.

Como é que alguém pode esperar que consigamos dar o nosso melhor, que consigamos tomar as melhores decisões, se estamos constantemente a ser levados, ou a levarmo-nos, ao limite? Pior, fazendo-nos crer até que se não estivermos sempre no limite estamos a ser preguiçosos, incompetentes e ingratos.

Não estou a falar minha empresa actual porque eles são impecáveis nesse aspecto. Mas eu sou culpado disto para mim próprio. Quando não estou a trabalhar estou a ler ou a ouvir podcasts, geralmente sobre trabalho. Mesmo ao fim de semana. Porque quero sempre mais. Mas será saudável? É algo que ando a debater comigo próprio e a tentar encontrar um equilíbrio.

Há uns tempos conheci um empresário português chamado Gonçalo Gil Mata que, na busca desse mesmo equilíbrio, decidiu que não ia trabalhar nem à segunda de manhã nem à sexta à tarde. O mais incrível é que não é só ele que não trabalha. Nenhum dos seus funcionários o faz. Todo o trabalho, e os projectos que aceitam, são sempre mediante essa condição. Adorei esta ideia e mostra que há alternativas. Basta querer.

A Indico Capital Partners, o maior fundo de capital de risco privado português, anunciou esta semana um investimento de 500 mil euros numa start-up luso-brasileira que criou uma plataforma online de consultas de psicologia e bem estar. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a ansiedade e a depressão são uma as epidemias do século XXI. O que me faz pensar que toda esta área da saúde mental vai crescer muito nos próximos anos. Não só por isso mas porque vejo muitos amigos meus a serem constantemente levados ao limite pelo seu emprego.