O Voto, a Campanha e o Candidato

Estava a pensar em quem ia votar e percebi que não sabia absolutamente nada sobre os candidatos. Nem o que propõem, os seus valores ou a sua história. Quem são estas pessoas? Seria muito facilitista apontar o dedo a mim próprio e dizer que a culpa é toda minha porque não fiz o esforço para me aproximar deles. Não penso que seja apenas culpa minha. Há uma transação a ter lugar. Ainda que o interesse superior de votar seja do cidadão, os candidatos, em concorrência uns com os outros, disputam o meu voto. Comecei então a pensar nos candidatos como produtos concorrentes numa prateleira de supermercado. O que é que está a acontecer para que eu olhe para os produtos e não faça ideia o que escolher porque não sei nada sobre eles?

O Seth Godin, um grande pensador do marketing, disse que as pedras basilares da economia moderna são a confiança e a atenção.
Uma marca precisa da minha atenção – que eu esteja a olhar para ela ou a ouvi-la – para me transmitir alguma mensagem e depois precisa da minha confiança para me levar à compra.

Isto é especialmente interessante num período eleitoral. Porque os candidatos, de acordo com a lei, só podem afixar propaganda e fazer publicidade comercial em alguns dias que precedem as eleições. O período oficial de campanha. E, durante esses dias, estão todos a lutar pela nossa atenção, aos gritos uns por cima dos outros, a tentarem ganhar a nossa confiança. Muitas vezes através de iniciativas bizarras como ir a uma escola mandar beijinhos às crianças, tocar bateria ou andar a distribuir canetas na rua. Uma espécie de versão adulta das coisas loucas que os youtubers fazem para se destacarem uns dos outros e terem visualizações. Isto tudo aliado ao facto de que, numa campanha, toda a gente sabe que há uma expectativa de uma transação no fim. Por isso é estarmos a ouvir um vendedor que sabemos que vai dizer tudo para nos impingir o produto dele.

A confiança não se cria em poucos dias. Mas porquê restringirem-se ao período de campanha? Há outra coisa que podem fazer no resto do tempo: criar a vossa marca. Exactamente aquilo que o nosso Presidente Marcelo fez. Durante 8 anos esteve na televisão todas as semanas. Tinha e criou atenção à sua volta. Todas as semanas deu a sua opinião sobre vários assuntos. Muita gente, ao saber a visão dele sobre esses assuntos, ganhou confiança nele. No momento em que o Marcelo Rebelo de Sousa se candidatou, a campanha eleitoral foi uma mera formalidade. Só teve de dizer “estou aqui”. E as pessoas que iam a passar na fila de supermercado viram um produto que reconheciam e no qual confiavam. Compraram.

Como é que um candidato pode fazer isto? Na minha opinião é jogar o jogo a longo prazo e criar um plano de marketing. Um plano de marketing define onde é que uma empresa está, para onde quer ir e o que vai fazer no entretanto para lá chegar. O que é que acham mais eficaz? Alguém que antes de uma eleição diz que o ambiente é uma preocupação enorme ou alguém que esteve um ano inteiro a participar em iniciativas ambientais? Como é que eu quero que a minha marca seja percepcionada e o que é que eu vou fazer para criar essa percepção?

Graças à fome voraz dos media por novos conteúdos que alimentem a máquina, possivelmente, conseguem exposição mediática dessas acções. Se não, graças à internet, podem criar vocês essa mesma exposição. E, quando chegar a campanha, não vão precisar de esgravatar com todos os outros pela minha atenção e pela confiança. Porque, pouco a pouco, ao longo de 4, 8 ou 12 anos, já o fizeram.