Receitas para o sucesso

“Acordar às 5 da manhã. Tomar banho de água fria e só respirar pela narina esquerda enquanto fazes malabarismo com coelhos”.

Este tipo de listas de como atingir o sucesso, com as mais variadas e mirabolantes receitas de coisas que CEOs de sucesso fazem, têm um erro de lógica conhecido como Survivorship Bias. O Viés do Sobrevivente leva-nos a olhar apenas para coisas ou pessoas que sobreviveram a um processo de selecção e a ignorar aquelas que não sobreviveram.

Um exemplo disto é quando as pessoas elogiam móveis ou construções antigas e dizem “já não se fazem coisas que duram como antigamente”. A verdade é que apenas estamos a observar as coisas que, efectivamente, duraram mais tempo. As sobreviventes. Todas as outras que não resistiram, que podem ser muito mais, já desapareceram e, portanto, estão fora da nossa esfera de observação. O que nos leva a concluir que antigamente as coisas foram feitas para durar, ignorando todas as outras que não duraram. Aquilo que o Nassim Taleb, no livro Black Swan, chama de “provas silenciosas”.

Durante a segunda guerra mundial, o Centro de Análise Naval Americano fez um estudo sobre os danos sofridos por aviões que voltavam de missões. Recomendaram que fosse aplicado reforço às áreas com mais danos causados por fogo inimigo. O estatístico Abraham Wald reparou que o estudo sofria do Survivorship Bias. Apenas os aviões que voltavam foram estudados. Os aviões abatidos não. Na realidade, os aviões que voltavam conseguiam resistir aos danos nas zonas apresentadas. Wald propôs que os aviões fossem reforçados exactamente nas zonas onde não havia danos. Zonas essas que, possivelmente, poderiam ter levado os aviões abatidos a não resistir.

Se eu seguir todas as listas de “morning routines” de CEOs, como muitos posts no linkedin e instagram recomendam, estou mais perto de ser como eles? Provavelmente não. Porque estes posts ignoram todas as outras pessoas que também acordam às 5 da manhã e comem açaí mas que acabaram por não criar uma empresa bilionária.

Embora estas listas de coisas a fazer para ter sucesso sejam inofensivas, há outro tipo de posts que estão agora na moda que, a meu ver, já não são inofensivos. Os posts que incentivam as pessoas a não irem para a faculdade. No Estados Unidos, os alunos acabam a Universidade com centenas de milhares de dólares de dívida. Eu percebo o porquê do movimento anti-universidade lá. Mas, por alguma razão, esta moda começou a pegar cá em Portugal. Posts que dizem que o Bill Gates e o Zuckerberg não foram à faculdade mas esquecem-se sempre de mencionar que o Musk e o Bezos são engenheiros. Esses posts, além de ignorarem que também há pessoas de sucesso que foram para a Universidade ignoram todos os outros que não foram para a faculdade e não tiveram sucesso. (Qualquer que seja a métrica que eles estão a usar para definirem o sucesso)

Será que podes ter sucesso a ir para a Universidade? É possível. Será que podes ter sucesso sem ir para a Universidade? É possível. Será que deves desconfiar de alguém na internet que te incentiva a tomar decisões importantes para a tua vida sobre a qual ele não tem qualquer contexto? Definitivamente.