Refeito do choque de ontem queria perguntar: a sério que estamos todos assim tão surpreendidos?

Estamos a falar do país em que a comunicação social inventa, factualmente, inventa “notícias” de futebol. Muitas delas inflamatórias. Porque inflamar vende. A sério que ninguém vê o Prolongamento, Dia Seguinte ou o MaisTabaco em que um indivíduo “isento” de seu nome Rui Pedro Braz inventa narrativas em directo? É o país em que os jornalistas se demitiram de ser jornalistas para poderem ter no seu lugar comentadores que, não obedecendo a um código de conduta, podem dizer o que querem porque sim. Toda a gente se lembra do episódio do JJ “não apelidar o Rui Vitoria de treinador”. O que ninguém se lembra é que essa resposta vem na sequência de um jornalista lhe pedir para comentar uma declaração falsa do Rui Vitória. Vale tudo pela “notícia”.

Estamos a falar do país em que os vários governos e classes políticas se borram de medo do futebol. Em que são incapazes de tomar medidas e de regulamentar por receio do que isso possa traduzir eleitoralmente.

Estamos a falar do país em que a Federação e a Liga se recusam a tomar medidas para tornar o futebol mais transparente e que permitem, semana após semana, mais suspeições de falcatruas de bastidores.

Estamos a falar do país das escutas do café com leite, do Major e de presidentes arguidos e funcionários judiciais corrompidos. De invasões a programas de televisão em directo. De discursos provocatórios e inflamatórios. Das claques terem de ficar uma hora e meia num estádio fechadas para todos os outros saírem porque se não dá porcaria. De se falar que as claques ALEGADAMENTE estão todas envolvidas em certas coisas de que toda a gente sabe. Do líder em funções de uma claque ter andado a assaltar casas a mando de um vice-presidente. De haver um tiroteio junto a um estádio para se tomar o poder da claque (por causa daquelas coisas que eles ALEGADAMENTE fazem e que geram muito dinheiro). De uma morte por very light e outra por um atropelamento e ainda de um dia o Canal Q ter sido evacuado pela polícia porque uma claque queria violar uma funcionária que tinha gozado com o clube. De se achar que a chuva pirotécnica no último Sporting-Benfica foi “bonito”. De “grupos organizados de adeptos”. De núcleos das terrinhas serem vandalizados e idosos agredidos. Dos confrontos em celebrações no Marquês ou do simples insultar adeptos adversários. E isto não é só claques. Há uns dias, num grupo de Facebook do qual faço parte, vi uma pessoa “normalíssima” dizer que achava que o Correio da Manhã estava a precisar do seu momento Charlie Hebdo.

Podem culpar o Bruno de Carvalho do que quiserem (e eu também culpo). Mas ele é apenas um produto de 30 anos daquilo que eu aqui descrevi. O que aconteceu ontem era só uma bomba à espera de explodir. A verdade é que estamos todos metidos neste saco de merda. Toda a gente tem culpas no cartório. O futebol português só é sujo porque quem tem poderes para o limpar não o quer fazer.

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