Categories
Textos Vlog

Autenticidade

Sabiam que há uma pessoa em Portugal que vive de um podcast e das vendas que esse podcast origina? Para mim, um dos melhores exemplos de marketing de conteúdo em Portugal e um excelente exemplo do que é a tão falada, quase mitológica e difícil de definir, autenticidade. Já vos digo quem é.

Um dos grandes benefícios que uma marca tem em criar conteúdos é a relação que cria com a audiência. Ao contrário do modelo tradicional em que o marketing interrompe as pessoas – como anúncios a meio de um vídeo de youtube ou de um filme na TV – a criação de conteúdo que transmita algum tipo de valor à audiência atrai as pessoas para ele. As pessoas não são forçadas a consumi-lo. Querem fazê-lo. Se a marca fizer essa entrega de conteúdo com valor de forma consistente, potencialmente, irá criar uma relação de confiança com o consumir. Nesse momento tem aquilo a que o Seth Godin chamou os dois pilares da economia moderna: atenção e confiança. Para vender precisamos que olhem para nós (ou nos ouçam) e que confiem em nós.

É isso que o comediante Pedro Teixeira da Mota tem feito todos os domingos quando lança um episódio do meu podcast preferido, Ask.tm. À data em que filmo isto, vai no episódio #132. Sem falhar um, o Pedro está a publicar há 132 semanas consecutivas um monólogo de 30 minutos em que fala sobre ideas que teve ou coisas que lhe aconteceram nessa semana. Como a mudança de casa ou ir almoçar com a avó. Através da comédia, e do seu mundo louco de teorias sobre a vida, ele cria uma relação com a audiência. Eu sinto que o conheço e que estou a ouvir um amigo a falar.

Mas essa relação também advém daquilo que é o maior chavão do mundo do marketing actual: a autenticidade. A autenticidade é, como definiram os filósofos existencialistas, termos acções consistentes com os nossos valores independentemente de pressões externas. Ser fiel a si próprio sem que percamos, como disse o filósofo Kierkegaard, a nossa individualidade e sejamos “nivelados” pela cultura de massas.
Sendo assim, acrescento eu, a coisa mais importante para ser “autêntico” é sabermos muito bem quem somos e o que representamos. Essa é a base e o guia para as nossas acções enquanto marcas. E o Pedro soa autêntico. Como ficou patente no episódio após ele ter ido ao encontro de influencers no Palácio de Belém em que diz que se soubesse o que ia acontecer não tinha ido e explica o porquê. Uma das maiores qualidades do Pedro enquanto marca é saber muito bem quem ele é. Mesmo que isso nunca mais lhe traga um convite do Presidente da República.

Resultado: 50 mil audições por episódio, 920 pessoas contribuem-lhe dinheiro mensalmente na plataforma Patreon e, no fim do ano passado, o Pedro esgotou 3 sessões no Coliseu de Lisboa e mais 18 sessões no resto do país com o seu espectáculo de stand-up Caramel Machiatto. E o Coliseu de Lisboa estava à pinha. Eu sei porque estava lá. Para vender esses milhares de bilhetes bastou-lhe falar do espectáculo no podcast e publicar no instagram. O mais difícil já estava feito.