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Avulso Redes Sociais

Fui convidado para falar na World Academy sobre influenciadores

ūüėä quase 4 horas do que se tornou um debate sobre a influ√™ncia de produtores de conte√ļdos digitais na cultura. Adorei ūüí™ obrigado ao Miguel Bica pelo convite!

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O Problema do Narcos

“Quando v√™s o Narcos n√£o ficas cheio de vontade de ser narcotraficante?” dizia-me uma amiga minha. Gosto bastante da s√©rie Narcos. √Č entretenimento do mais alto n√≠vel e o Wagner Moura est√° excepcional. No entanto, a s√©rie tem um grave problema. Mas para poder escrever sobre ele tenho de recuar um pouco mais na hist√≥ria:

Quando qualquer cineasta decide pegar no tema do Holocausto debate-se com um grande problema: Como √© que se representa o Holocausto? Como √© que se p√Ķe numa “caixinha” algo t√£o extremo, complexo, obsceno e tr√°gico? H√° muitos estudiosos da representa√ß√£o do Holocausto (e eu tive um deles como professor na faculdade – foi um semestre levezinho sobre o Holocausto como podem calcular) porque h√° a clara consci√™ncia de que √© preciso um grande sentido de responsabilidade ao tocar neste assunto. √Č a forma como as pessoas v√£o lembrar e entender algo de extrema import√Ęncia.

Muito resumidamente, há duas grandes problemáticas na representação do Holocausto:

1) A objectificação das vítimas
Sempre que se mostra uma vala comum cheia de cad√°veres ou uma multid√£o a entrar numa c√Ęmera de g√°s. Isso √© objectificar as v√≠timas. √Č represent√°-las como uma massa inc√≥gnita. Hom√≥genea. Cria distanciamento emocional.

2) A romantização dos Nazis
Um terreno altamente complexo. Por um lado, pode-se humanizar demasiado a personagem, criando empatia com o espectador. Por outro, pode-se fazer dela quase um desenho animado, como no Indiana Jones, retirando-lhe a gravidade dos actos. Por outro ainda, h√° o conhecido efeito psicol√≥gico sobre a atrac√ß√£o da audi√™ncia por vil√Ķes. Veja-se The Joker, Hannibal Lecter, Darth Vader. Sentimo-nos atra√≠dos por vil√Ķes porque eles s√£o capazes de fazer aquilo que n√≥s nunca conseguir√≠amos/poder√≠amos. Reflectem o nosso lado mais negro. √Č altamente perigoso, numa representa√ß√£o do Nazismo, criar este efeito.

Isso faz-me chegar ao Pablo Escobar. Tem havido, nos √ļltimos anos, e com ponto alto no Narcos, um processo de “cool-ifica√ß√£o” da figura do Escobar. A frase que a minha amiga me disse e que abre este texto faz todo o sentido. Porque a representa√ß√£o que √© feita do Escobar cria essa imagem. Ele √© omnipotente. Mas tamb√©m √© altamente humano com a fam√≠lia. A personagem √© humanizada e √©-lhe dado o aspecto cool de quem pode tudo. As suas v√≠timas s√£o praticamente “inexistentes”. Sabemos que ele coloca bombas em todas as esquinas e que os seus sicarios matam a torto e a direito. Mas pouco mais. O lado verdadeiramente cru e duro da destrui√ß√£o que ele provoca nunca nos √© mostrado. E quando √© mostrado – como na cena em que o Escobar dan√ßa com a mulher enquanto os seus sicarios matam dezenas de pol√≠cias pela cidade – as v√≠timas s√£o objetificadas e o vil√£o glorificado de forma cool.

Na realidade, estima-se que o Pablo Escobar tenha sido responsável pela morte de entre 5 mil a 10 mil pessoas. Dos quais 2800 polícias.
Constantemente oi√ßo pessoas a falar do Pablo Escobar como uma esp√©cie de her√≥i do povo. Um empreendedor que vindo do nada chegou a 7¬ļ homem mais rico do mundo. Um ideal de self made man. Um Che Guevara/Robin dos Bosques anti poder. N√£o foi. Foi um assassino em massa. Mas a culpa n√£o √© de quem pensa isto. √Č da forma irrespons√°vel como o Escobar √© representado na cultura popular. A s√©rie, como entretenimento, continua a ser muito boa. Mas h√° que ter no√ß√£o disto.

P.S: só vou no início da segunda temporada. Quem comentar com spoilers vai levar com a visita de um sicario.

P.S: o Wagner Moura é mesmo um grande, grande actor.

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Maria Vaidosa

Dei por mim a gastar 5‚ā¨ numa revista sobre moda, maquilhagem e lifestyle s√≥ para folhear isto com os meus pr√≥prios olhos. Uma youtuber portuguesa lan√ßou uma revista. Acho absolutamente revolucion√°rio uma youtuber lan√ßar-se para o mercado editorial em Portugal. N√£o √© novo uma personalidade lan√ßar uma revista – Cristina, J√ļlia – mas uma personalidade “da internet” faz√™-lo √© algo completamente novo.

O design est√° impec√°vel. O trabalho comercial est√° fort√≠ssimo, repleto de “product placement” de uma ponta √† outra, inclusiv√© uma p√°gina inteira de publicidade ao Samsung S8, o que mostra a seriedade com que as marcas est√£o a levar “uma revista de uma youtuber”. A revista saiu hoje e foi anunciada ontem, de surpresa, no canal dela. O instagram oficial da revista, s√≥ em tr√°fego vindo do instagram dela, passou de 0 seguidores ontem √† noite para + de 8 mil neste momento (14h).


Como diz o Jeff Bezos, CEO da Amazon, “as ideias n√£o s√£o disruptivas. Apenas a aceita√ß√£o do p√ļblico a essas ideias √© que √© disruptiva”. No caso d’ A Maria Vaidosa, apenas resta saber se o p√ļblico ir√° aceitar a revista e se ir√° causar “disrup√ß√£o” √†s vendas e receitas de publicidade da concorr√™ncia do mesmo segmento. Espero que sim. Acho tudo isto fascinante!

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O Paradoxo da Amizade

Imaginem que um amigo vosso lança um produto/serviço. Por exemplo, um festival. Se um gajo organiza um festival, alguns amigos vão tentar cravar-lhe bilhetes de borla. Visto que o sucesso de um negócio está dependente das suas vendas, as pessoas vão prejudicar o amigo ao cravarem. No entanto, se o festival for organizado por um desconhecido, já nem lhes passa pela ideia tentar cravar. Ou seja, paradoxalmente, as pessoas colocam os amigos numa situação de prejuízo em que nunca sequer ponderariam colocar um desconhecido.

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País Irmão

Hoje estreia uma nova s√©rie da RTP – no seguimento da boa aposta da RTP em s√©ries – chamada “Pa√≠s Irm√£o”. Depois vai estrear a “1986” escrita pelo Markl. E logo a seguir a “Cria√ß√£o”, uma com√©dia sobre uma ag√™ncia de publicidade.

Em rela√ß√£o √†s 3 s√©ries, s√≥ soube da exist√™ncia delas porque sigo e/ou conhe√ßo algumas das pessoas envolvidas na produ√ß√£o e que postaram sobre isso. N√£o vi publicidade na TV porque n√£o vejo publicidade na TV. Ou porque quando mal come√ßa a publicidade eu olho para o telem√≥vel ou porque a “salto”. Em nenhuma das s√©ries fui “alvo” de publicidade quer seja no facebook ou no instagram. E eu sou exactamente o p√ļblico alvo para s√©ries de televis√£o.

Logo, de que √© que serve √† RTP apostar (e bem) em novas formas de conte√ļdos se depois n√£o faz um esfor√ßo para as publicitar nos s√≠tios onde de facto as pessoas est√£o de olhos postos? E por serem s√©ries de “g√©nero” era meio caminho andado: A 1986 √© sobre os anos 80: targetting a quem segue o Stranger Things, o Nuno Markl, aqueles cl√°ssicos dos anos 80 e aquela faixa et√°ria que sentir√° a nostalgia dos anos 80. Pa√≠s Irm√£o √© sobre pol√≠tica e jornalismo. Targetting a quem segue o House of Cards, Veep, Newsroom, etc. Ou qualquer outro tipo de s√©ries e filmes que achem que s√£o similares √†s s√©ries em quest√£o!


Criar novos conte√ļdos para ir buscar o p√ļblico que se afastou da TV generalista em prol do cabo, grava√ß√Ķes da box ou streaming online √© uma √≥ptima iniciativa. Mas para isso √© preciso usar m√©todos que cheguem √†s pessoas que est√£o fora do alcance da esfera do canal (RTP1e2, r√°dios da esta√ß√£o e alcance org√Ęnico do facebook do canal). √Č preciso investir em marketing! Por alguma raz√£o os filmes de Hollywood t√™m or√ßamentos de marketing de valores similares aos or√ßamentos de produ√ß√£o. Porque h√° a perfeita consci√™ncia de que n√£o chega s√≥ fazer. √Č preciso fazer chegar √†s pessoas.


Ainda por cima o primeiro epis√≥dio de uma s√©rie √© de import√Ęncia extrema. Todo o marketing, com semanas (meses?) de anteced√™ncia devia estar focado em sentar as pessoas √† frente da TV para o primeiro epis√≥dio. O primeiro epis√≥dio tem de ser um “happening” de que toda a gente ouviu falar. Porque se uma pessoa s√≥ descobre a exist√™ncia da s√©rie ao segundo epis√≥dio e n√£o percebe nada da hist√≥ria: j√° foste.

P.S: N√£o escrevo este texto em tom de cr√≠tica mas sim porque gostava muito de ver estas s√©ries a terem sucesso! H√° gente muito talentosa envolvida e era √≥ptimo para o futuro da fic√ß√£o portuguesa. Mas √© preciso que na RTP haja no√ß√£o de que n√£o chega fazer. √Č preciso fazer chegar √†s pessoas.

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Twin Peaks РSérie 3

A arte deve dar respostas ou criar perguntas? Creio que esta pergunta √© essencial para compreender o final do Twin Peaks. Vi o final e estou h√° duas horas a tentar criar um fio condutor para entender o que se passou. Tenho uma interpreta√ß√£o que me faz sentido. J√° ouvi de outras pessoas diferentes interpreta√ß√Ķes que tamb√©m fazem sentido. Mas em qualquer uma delas h√° pe√ßas soltas que n√£o encaixam.

No in√≠cio de um filme narrativo cria-se uma interroga√ß√£o na forma de um conflito. “Ser√° que o protagonista vai conseguir X?”. Na linha americana, em 99% dos casos, o protagonista sucede. Resolveu-se o conflito. Responde-se √†s perguntas. Final feliz. D√° uma sensa√ß√£o de satisfa√ß√£o ao espectador.


Numa linha mais europeia (e muito portuguesa), não há especial interesse em oferecer uma satisfação final ao espectador nem finais felizes. A linha europeia, mais do que respostas, gosta de desafiar, provocar e deixar perguntas.


Neste final do Twin Peaks sinto-me dividido. Por um lado, gostava que tivesse havido respostas. Que n√£o houve. Gostava daquela satisfa√ß√£o. Por outro, adoro esta sensa√ß√£o de estar aqui a matraquear sobre “que raio √© que eu acabei de ver?!”. De tentar juntar as pe√ßas, t√£o confusas, e de tentar dar significado ao puzzle.


Longe de mim querer afirmar que este regresso do Twin Peaks tenha sido ou não arte. Não consigo sequer dizer se gostei tal como não consigo dizer que não gostei. Na verdade não sei bem o que dizer. Mais do que da história gostei muito de ver um criador a esticar a corda do que são os paradigmas e regras de um meio (TV). Porque estes 18 episódios podem ser acusados de tudo menos de uma coisa: de serem parecidos com alguma outra coisa que já tenha sido feita.

P.S:
Um episódio que adorei: o 8. Um cocktail de duas partes metáfora, duas partes cinema de terror experimental, agitado, com gelo e finalizado com uma azeitona de lsd.