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Hoje faz…

Hoje faz 2 anos que a BOUNCE abriu.

Durante estes dois anos ouvi muita gente, mesmo muita gente, dizer “Isso tá sempre cheio. Quem me dera ter sido eu a ter essa ideia”. Eu entrei aqui um mês antes de abrirmos. Curiosamente, durante esse mês ouvi muita gente, mesmo muita gente, dizer “Trampolins em Portugal? Hmmmm achas que isso vai pegar?” (seguido de um torcer de nariz). A verdade é que ninguém acreditava.

Como diz o Seth Godin, a existência de concorrência legitimiza a tua ideia. Prova que não és louco. Queres fazer alguma coisa que outro já provou que funciona. O problema surge é quando queres fazer alguma coisa que ainda ninguém fez. Algo para o qual não há maneira nenhuma de provar se o mercado vai responder positivamente ou negativamente. Depois de provado que funciona é muito fácil dizer “quem me dera ter sido eu”. No entanto, antes de se o provar, é preciso um tipo especial de loucura – coragem? arrojo? – para investir 1.4 milhões de euros numa coisa assim.

Dois anos depois. 293.274 (vou repetir: duzentos e noventa e três mil, duzentas e setenta e quatro) pessoas saltaram aqui. No melhor dia de sempre tivemos 1408 pessoas a saltar num só dia. 60 pessoas trabalham aqui. O resto é história. Há quem salte de avião e há quem faça bungee jumping. Mas haverá algo mais radical do que um investimento desta dimensão nestas condições que aqui descrevi? Acho que não. Que loucura.

Parabéns à BOUNCE!

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Há aquela velha história…

Há aquela velha história sobre um português e um americano que estão na rua e vêem passar um Ferrari. O americano aponta para ele e diz “um dia vou ter aquele carro”. O português aponta para o Ferrari e diz “um dia ainda vais andar de fiat punto”. A história do Jorge Jesus é paradigmática disto. Um miúdo que nasceu numa família humilde na Amadora. Que na adolescência recolhia cobre para vender para poder ter dinheiro e dar à família. Nunca andou na faculdade, a sua universidade foi o futebol. No seu primeiro ano de jogador trabalhava ao mesmo tempo numa fábrica. Subiu na vida por mérito próprio ao ponto de estar a ganhar muitos milhões por ano. E, no que toca ao assunto Jorge Jesus, o que se ouve é sempre o mesmo: é chocante/ridículo/vergonha/etc ele ganhar tanto. O americano olharia para esta história e diria que um dia iria chegar aquele patamar. O tuga só vai estar feliz quando ele andar de fiat punto.

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Diário Web Summit – Considerações Finais

A buzzword na boca de toda a gente este ano foi Blockchain. Bastava dizeres esta palavra para mostrares a toda a gente que estavas “dentro da cena”. O que eu acho fascinante no Blockchain é o facto da tecnologia estar a possibilitar a utopia e é, possivelmente, a coisa mais revolucionária que eu já ouvi.

O que é o Blockchain? É uma tecnologia de registo não centralizado de transações financeiras. Passo a explicar: Hoje em dia, se o Zé quiser transferir 100€ à Maria, tem de dar ordem ao seu banco para o fazer. O banco retira os 100€ da conta do Zé e envia-os para a Maria ficando registado no “livro de registo” do banco que isso aconteceu. O banco é o nódulo central da operação. Toda a informação tem de passar pelo banco. É no banco que tanto o Zé como a Maria depositam confiança para realizar correctamente esta operação (e a palavra confiança aqui é importante). E o “livro de registo” onde o banco regista esta operação é o coração disto tudo. O Blockchain surge porque alguém lançou para a mesa a seguinte pergunta: “e se não for preciso um agente de registo centralizado que garanta a confiança da operação?”.
O Blockchain é um registo não centralizado de transações. Neste momento altamente popularizado por moedas digitais como o Bitcoin e o Ethereum. Como é que isso funciona na prática?

Imaginem um grupo de 6 pessoas. A pessoa #2 decide enviar 100€ à pessoa #5. Todas as 6 pessoas do grupo têm um “livro” de registos próprio e registam numa página do seu livro que Sábado, dia 11 de Novembro às 10:08 da manhã o #2 enviou 100€ ao #5. À medida que vai havendo mais transações essa página vai enchendo. Quando a página fica cheia, antes de se passar para a próxima página, é preciso “selar” de forma segura e inequívoca esta página para que seja impossível modificá-la e para que todos os membros do grupo tenham confiança de que a informação lá contida está segura para sempre. Isto é feito através de criptografia. Todas as pessoas deste grupo agem em conjunto para encontrar uma senha criptográfica. Ou seja, o computador de cada pessoa do grupo está a usar o seu poder de processamento nesta operação altamente complexa em prol do objectivo comum. Todos os elementos do grupo “concordam” numa chave criptográfica e a página é selada. Começa-se então a registar transações numa nova página. Imaginem que cada página é um bloco. Cada conjunto de páginas é uma corrente de blocos. Logo, Blockchain.

E se um membro do grupo quiser aldrabar uma página? A corrente de blocos, independentemente do número de pessoas que estiver a criar registos é só uma. Ou seja, imagina que tu agoras “entras” no mundo do bitcoin e fazes uma transação. Essa transação vai-se juntar a uma corrente enorme e de muitos anos de transações Bitcoin. No Bitcoin só existe uma Blockchain (que está com 100gb neste momento). A beleza da segurança do Blockchain é que o sistema está feito para que todos os blocos sejam dependentes do bloco anterior. OU SEJA, se um indivíduo desonesto quiser modificar um dos blocos terá de modificar todos os blocos existentes depois desse. O tempo e poder de processamento necessário para isto será impossível visto que a maioria continua a criar novos blocos naquele mesmo momento. O indivíduo teria de ter mais tempo e poder de processamento que todos os outros para conseguir apanhar “o atraso”. No Blockchain, um indivíduo nunca se conseguirá sobrepôr à maioria.

Agora, vamos extrapolar um bocadinho. Havendo capacidades tecnológicas para tal, os princípios do Blockchain podem revolucionar todos os sistemas centralizados. Como disse o Bryan Johnson, CEO da Kernel, o Blockchain pode tornar obsoleta a ideia de um governo centralizado. Porque cada indivíduo age como agente que estabelece a “confiança” com o indivíduo do lado. Esta ideia, que a tecnologia está a permitir na prática, é talvez a coisa mais revolucionária que eu já ouvi.

Nos últimos dias tentei trazer aqui algumas ideias que achei verdadeiramente interessantes do que aconteceu na Web Summit. Escrevi sobre inteligência artificial e ética, carros autónomos, a voz substituir o mobile/táctil como interface dominante e o Blockchain, entre outras coisas. Muito mais aconteceu mas estas foram as que mais me marcaram e que achei que irão dominar o nosso futuro imediato. No entanto, do que eu vi quando acabou a conferência, “cá fora” a comunicação social apenas falou da Caitlyn Jenner, Robots falantes, Bruno de Carvalho, Sara Sampaio e carros voadores. E, por favor, corrijam-me se eu estiver errado, mas eu não vos escrevi aqui coisas mil vezes mais interessantes do que essas? Acho que a comunicação social fez um trabalho miserável em transmitir aquilo que lá aconteceu. Diminuíram a importância do que foi falado só se focando em meros fait divers. A comunicação social tradicional banaliza-se e estupidifica-se a ela própria. São eles que se estão a matar a si próprios.

Gostei muito. Ouvi gente incrível. Conheci pessoas fascinantes. Espero que tenham gostado do que escrevi! Tentei passar cá para fora aquilo de que gostei mais. Obrigado por terem lido!

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Diário Web Summit – Dia 2

O segundo dia, desse por onde desse, era o dia do Ze Frank. O Ze Frank é o responsável por toda a estratégia digital e conceptual do departamento de vídeo do Buzzfeed. Canais como o Tasty ou o Nifty, são responsabilidade dele. O Ze é uma lenda da internet. Foi um dos youtubers originais e é uma das pessoas creditadas com ter feito um dos primeiros virais. Um e-mail com o convite para a festa de anos dele que continha um gif animado dele a dançar. O e-mail tornou-se altamente viral e ele acabou nos principais telejornais americanos a falar disso.

O Ze estudou neurociência e é um estudioso do porquê das pessoas partilharem coisas. Uma das principais razões que eles descobriram ao analisar data de milhares de vídeos do buzzfeed, é que a principal razão pela qual as pessoas partilham algo é porque esse algo reflecte identidade. A nossa ou a de outro. Por exemplo, um dos vídeos mais virais de sempre do buzzfeed é sobre ser canhoto. Os canhotos partilharam. As pessoas que conheciam algum canhoto partilharam com esse canhoto.

A apresentação de ontem andou de volta dos conteúdos enquanto cola social. Um meme, por exemplo, age como ponte de comunicação entre pessoas. Tal como um emoji transmite uma sensação de forma muito mais eficaz do que muitas palavras, um meme ou um vídeo na internet têm o mesmo efeito. Há muitas palestras do Ze no YouTube sobre este assunto e o canal de YouTube dele é lendário. Quem estiver minimamente interessado neste assunto dê uma olhadela (o vídeo “if you are in a shell…” é brilhante).

Tenho acompanhado bastante a evolução dos podcasts e a crescente relação com a voz. Ali a meio do ano passado dei por mim a consumir cada vez mais podcasts. Além do tempo que se “poupa” – porque com um podcast podemos estar a fazer outra coisa qualquer, enquanto que a ler ou a ver um vídeo não – é interessante a sensação de familiaridade que se cria.

O primeiro podcast que me viciou a sério chama-se Tanis. É um podcast de ficção sobre uma investigação jornalística a um evento sobrenatural. É muito interessante e diferente a sensação de ter alguém a contar uma história em que essa pessoa está dentro da nossa cabeça. Por isso, para mim, alguns dos chamarizes deste ano são as apresentações da Amazon sobre voz.

Ontem, o Al Lindsay, Head of Product da Alexa falou de um fenómeno incrível. Crianças que já nasceram com o Amazon Echo em casa estão tão habituadas a usar a voz para interagir com uma máquina que fazem o mesmo com todos os electrodomésticos em casa e ficam surpreendidas, no caso específico que ele deu, que o frigorífico não responda de volta como faz o Echo e a Alexa. Com a voz não há “learning curve”. Enquanto que pela via táctil há sempre muitos passos e grau de aprendizagem. Para saber os horários do cinema tens de ir ao Google e depois ao site do cinema e depois perceber como funciona o interface da compra e escolher os lugares e colocar os dados do cartão para comprar os bilhetes. “Alexa, quais são os horários do Thor no Corte Inglês?” – “Compra 2 bilhetes para as 16h”. Feito. A voz é um interface natural. Estou super entusiasmado pela apresentação do CTO da Amazon, Werner Vogels, no terceiro dia, exactamente sobre este tema.

Muito interessante foi também a palestra do Rand Fishkin sobre o futuro do SEO em 2018. A Google está a distanciar-se de apresentar links com resultados para apresentar “respostas”. Quando procuram algo – por exemplo, melhores filmes de 2016 – e a resposta surge logo no ecrã em thumbnails em cima sem que para verem o resultado da pesquisa seja preciso clicar num link. A pergunta é: se o Google ganha dinheiro por nós utilizadores clicarmos em links, porque é que está a dar-nos respostas que fazem com que não precisemos de clicar num link? Para o Rand, a Google está a sacrificar a facturação a curto prazo para nos deixar viciados em cada vez mais hábitos de pesquisa a longo prazo. Ele forneceu todos os slides da apresentação, se quiserem ver está aqui: http://bit.ly/seoin2018 (muito interessante!)

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Diário Web Summit – Dia 1

Lembram-se das zaragatas dos taxistas por causa da uber e serviços similares? Esperem até estarem na estrada os carros autónomos sem condutor. E nunca pensei que fosse preciso esperar tão pouco. Já se sabia que aí vinha mas afinal já cá estão. A Waymo, cujo CEO John Krafcik fez ontem uma apresentação, tem uma frota inteira pronta para entrar em acção na cidade de Phoenix no Arizona. Vai ser lá o projecto piloto com um serviço comercial tipo uber de carros sem condutor. Estes carros autónomos da Waymo têm feito 16 mil km por dia de testes num total de 5.5 milhões de quilómetros. A apresentação do CEO da Intel, Brian Krzanich, também foi nesse sentido. As capacidades de “machine learning” necessárias para ter carros autónomos já estão criadas. O carro consegue, em tempo real, calcular milhares de variáveis e adaptar-se a elas.


Para mim, as piores palestras são aquelas que apenas se limitam a apresentar coisas que aconteceram. Se eu quiser saber o “estado do influencer marketing” vou ao Google saber dados. O que eu é quero é que alguém me especule sobre o futuro disso. Nesse aspecto, no ano passado, as palestras do Facebook foram as melhores. Sempre focadas no futuro. Este ano, a do Head of Product do Messenger, Stan Chudnovky, ficou bastante aquém. Limitou-se a falar de coisas que já se sabem: o futuro imediato são os chat bots (a assumirem o papel de customer representatives), a possibilidade de fazer compras e pagamentos dentro do messenger e, quando apertado sobre o rumor de que o Facebook usa o conteúdo das conversas para recolha de dados com fins de targeting de ads disse que é totalmente mentira. Foi estranho. Já me aconteceu várias vezes, e a muitas outras pessoas, estar a ter conversas no messenger, mencionar X, e pouco depois levar com um ad disso no feed. O Stan diz que é apenas coincidência estatística (muito estranho) e remeteu sempre para coisas que o Zuck disse publicamente sobre o assunto (com claro cuidado para não fugir ao já declarado pela empresa).


A realidade virtual é algo que me fascina e na apresentação do CEO da Intel ele mostrou algo que vão implementar na próxima temporada da NBA. Com o Oculus Rift vai ser possível escolher o sítio da arena em que se quer ver o jogo em VR. Incluindo junto ao court, claro. As imagens que ele mostrou de exemplo foram incríveis. Aliado a isso, em jogos de futebol americano, vai ser possível, em determinados momentos, através de simulações criadas em tempo real, ver o que o jogador está a ver. É fácil extrapolar que dentro de pouco tempo vai ser possível ver um jogo de futebol, em realidade virtual, todo da perspectiva do jogado. Quão fascinante é isso?

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Diário Web Summit – Dia 0 – inauguração

O que é que eu gosto mesmo na Web Summit?

O Bryan Johnson, CEO da Kernel, no palco a falar para uma meo arena em que a primeira fila estava cheia de primeiros ministros, fala de como há a possibilidade de num breve futuro ser possível acabar com a ideia de um governo centralizado graças ao blockchain. Uma espécie de blockchain social em que cada pessoa age como agente que estabelece a “confiança” com o indivíduo do lado.

Logo a seguir, surge a Margrethe Vestager, Comissária Europeia para a Concorrência (a pessoa que lidera os processos de fuga ao fisco à Apple, Google e Facebook) e fala da responsabilidade que é criar um conjunto de “boas práticas” para a Inteligência Artificial. Face a algoritmos suficientemente inteligentes, como é que se incute ética a uma máquina para que se impeça a criação autónoma e inteligente de cartéis? Tal como o ser humano explora a falha do sistema, a própria máquina irá de forma inteligente e de forma muito mais eficiente encontrar maneira de a explorar.

O que eu gosto mesmo na Web Summit é sentir que estou em 2030. Ninguém tem a cabeça em 2017. Mesmo que ideias tão radicais como um “blockchain social” nunca venham a acontecer. Não interessa. O que acho fascinante é ouvir e conhecer pessoas cuja cabeça está no futuro e não no presente. E é altamente desafiante tentar entrar nesse modo mental.


Hoje de manhã, no metro, conheci e vim à conversa com duas senhoras, uma italiana e uma irlandesa, ambas da área do digital. Ontem jantei com duas brasileiras em que ouvi ideias sobre política, corrupção e inteligência artificial. Ainda são 11 da manhã do primeiro dia e já aconteceu isto tudo! As ruas do bairro e do cais estão cheias de gente fascinante à distância de um “olá! Tudo bem?”

Isto é um campo de férias mas em bom.