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Textos Vlog

Confiem em mim. Estou a mentir.

Há uns anos um gajo chamado Ryan Holiday, profissional de marketing, escreveu um livro muito interessante chamado “Trust Me. I’m Lying”. O livro é sobre manipular os media. Como conseguir que os media falem de nós. Ele, para promover o filme independente de um amigo, filme esse que só ia estrear em poucas cidades nos estados unidos, foi, numa noite, vandalizar os cartazes do filme que estavam numa dessas cidades. Colou nos cartazes autocolantes que davam a entender que o filme era sexista. Tirou fotos aos cartazes e enviou-as, com um nome falso, para vários blogs e organizações de mulheres a dizer que3 aquele filme era sexista e que promovia uma “rape culture”. Os blogs publicaram sobre o assunto. Os blogs maiores viram as notícias dos blogs mais pequenos e publicaram. Os jornais nacionais apanharam a notícia dos blogs maiores e publicaram. As organizações de mulheres fizeram manifestações. O Ryan Holiday conseguiu criou um escândalo nacional e muito mais gente ouviu falar de um filme que, se não fosse isso, teria passado completamente ao lado.

O mesmo acontece com os “beefs” do hip hop. Eu não oiço hip hop mas graças a “beefs” sei quem é o Piruka, o Holy Wood e o Machine Gun Kelly.

A polémica cria caixas de ressonância.

Há um indivíduo tuga que, espertalhão a aproveitar a onda Trump/Bolsonaro, já pôs esta dinâmica em prática. O timing denuncia tudo.

Fundou esta semana um partido cujas “propostas” são aqueles lugares comuns fascisóides que resultam em soundbytes bombásticos e que incendeiam conversas.

“Antigamente”, um indivíduo destes só tinha tempo de antena se efectivamente fosse a eleições e, portanto, por lei, tinha aqueles minutos antes do telejornal para dizer as baboseiras que ele quisesse. Ou então tinha de gastar muito dinheiro em cartazes para expôr as suas ideias mirabolantes. A comunicação social não era caixa de ressonância desta gente. Ninguém os ouvia. Eles não cresciam.

Hoje em dia, nós, que publicamos revoltados ou a gozar com estas personagens, tornamo-nos a caixa de ressonância deles. Estamos a dar-lhes exposição, logo força, e a tornarmo-nos os arquitectos da nossa própria miséria.

A comunicação social pode publicar uma vez. Talvez duas. Mas se ninguém falar disso quantas vezes mais é que a comunicação social irá publicar sobre um assunto para o qual aparentemente ninguém quer saber? Penso que se ninguém der cliques, se ninguém comentar, se ninguém falar deles… poof. Desaparece. Não tenho a certeza disto, como ninguém poderá ter. É uma teoria. No entanto, a outra abordagem, a de fazer mil posts a “destruir” estas personagens, claramente não está a funcionar. “Os cães ladram e a caravana passa”. Neste caso nós somos os cães e muito mais gente fica a saber que a caravana está a passar porque ouve o ladrar.

Se ninguém falar do Fight Club, ninguém sabe que o Fight Club existe. Muito menos probabilidade do Fight Club conseguir mais sócios.

P.S: Não vou escrever nem o nome da pessoa, nem o partido que ele fundou, porque é exactamente o que ele quer.