Categories
Textos Vlog

Em Portugal não se gosta de vender

Uma pessoa minha conhecida queria comprar novos computadores para a empresa. Fez vários pedidos de orçamento. A um deles perguntou se um certo tipo de discos rígidos estavam incluídos ou não. A resposta do vendedor, por e-mail, foi “Tem de comprar à parte.” ponto final. Só. Mais nada.

Há uns dias fiz vários pedidos de orçamento em várias gráficas em Lisboa e em Londres. 6 em cada uma das cidades. Todos os pedidos por e-mail. Todas as gráficas em Londres me responderam. Apenas uma em Lisboa o fez. As de Londres até e-mails de follow up fizeram a perguntar se eu ainda estava interessado e, quando souberam que eu não estava, respondiam a agradecer e a dizer para falar com eles sempre que precisasse. Das lisboetas recebi, na maioria, silêncio.

O gajo dos computadores perdeu a oportunidade para dizer “Tem de comprar à parte mas tem aqui estas opções X e que lhe compensam por Y”. Se calhar até podiam nem ter eles esses discos mas diziam “Olhe, não temos mas posso indicar-lhe um contacto que a poderá ajudar e que tem e blábláblá”. Ele até podia nem ter o contacto mas ia descobrir quem é que tinha aqueles discos ao melhor preço para ajudar o potencial cliente. Porque a pessoa pode não se tornar um cliente a curto prazo mas aquela pequena ajuda pode tornar o vendedor uma pessoa de referência/confiança para qualquer outra coisa no futuro.

A base do marketing e das vendas não é, ou deveria ser, criar relações?

Suponho que seja uma questão de cultura. A Web Summit responde, geralmente, aos e-mails enviados para o info em 24 horas. Os ingleses têm uma expressão óptima para isto que não existe em português: o “customer care”. A Web Summit podia bem passar sem me responder ao e-mail em que eu pergunto a que horas abre o check-in do aeroporto. De todos os “graus” de clientes deles eu estarei no fim da cadeia. Não era por isso que eu deixaria de ir ao evento e, dada a envergadura do mesmo e tendo eu o chip tuga na cabeça, até acharia normal não me responderem. Há serviços em que eu sinto que se preocupam (“care”) comigo enquanto cliente. Com esses é muito mais confortável negociar. Que haja gente que em 2018 ainda não percebeu isto é “mind blowing”.

Quando precisar de uma gráfica em Lisboa já sei a qual é que vou. À única que me respondeu.
Eu juro que não percebo. Ou está tudo muita bem na vida e não precisam ou então não percebo.