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Impostores

“Eu vivo constantemente com receio de me estar a escapar alguma coisa. Posso fazer-te umas perguntas sobre a forma como tu trabalhas?”. Foi esta a mensagem que enviei a uma pessoa que dirige o marketing de uma conhecida empresa aqui em Lisboa.

Fomos almoçar e eu partilhei aquilo que estou a fazer e ela explicou-me os processos dela. Acabei o almoço muito mais confiante, não só por estar a ter uma validação de um par, mas também por ter percebido que ela, muitas vezes, sente o mesmo que eu. Estamos todos a tentar perceber como é que “isto” se faz. Sendo o “isto” o trabalho ou a vida. Numa altura em que está super na moda exibir o quão confiantes e no controlo estamos do nosso lado profissional – e eu tendo sempre a desconfiar de quem se mostra muito confiante e com a respostas todas – é bom descobrir que há pessoas super competentes que também se sentem inseguras.

Em 1978 as psicólogas americanas Pauline Clance e Suzanne Imes publicaram um artigo chamado “The Imposter Phenomenon in High Achieving Women”. Foi assim que elas descreveram o “fenómeno do impostor”: ‘uma experiência interna de falsidade intelectual que parece particularmente intenso em grupos de mulheres de sucesso. Apesar de atingirem feitos excelentes a nível académico ou profissional, algumas mulheres sentem o fenómeno do impostor e acreditam que não são verdadeiramente brilhantes e que enganaram toda a gente a pensar que elas são”. As duas psicólogas escreveram que uma pessoa que sente isto, mesmo quando lhe são apresentadas provas objectivas da sua superioridade intelectual, continua a acreditar que é uma impostora.

Em 93 já era aceite que o Síndrome do Impostor era algo que acontecia em todos os géneros e raças. A revista Forbes cita estudos que dizem que 70% das pessoas já tiveram esta sensação de não serem boas o suficiente para estarem a fazer o trabalho que estão a fazer em algum momento das suas vidas.

Alguns traços comuns do Síndrome do Impostor: achar que os colegas ou patrões sobre-estimam as nossas capacidades, uma pessoa obriga-se a trabalhar muito mais para acalmar a ansiedade de achar que não é competente, sentir que a qualquer momento os outros vão descobrir que somos uma fraude, auto-sabotagem por acharem que não merecem esse sucesso, evitam pedir aumentos porque não acreditam que são competentes no que fazem, recusam-se a celebrar os seus sucessos, entre outros.

O Howard Schultz, CEO da Starbucks, disse: “Muito poucas pessoas, quer tenham estado naquele emprego antes ou não, sentam-se naquele lugar e acreditam que têm qualificações para ser CEO. Não te vão dizer isto mas é verdade”.

Uma das psicólogas que escreveu o estudo original diz que, hoje em dia, se o escrevesse outra vez chamar-lhe-ia “a experiência do impostor” e não síndrome. Porque não acredita que é verdadeiramente um síndrome nem uma doença mental. É “apenas uma coisa que quase toda a gente experiencia”.

Decidi fazer este vídeo por causa do alívio que senti depois daquele almoço. Se houver mais gente por aí a sentir-se assim, a sentirem que vos está a escapar alguma coisa, vocês não estão sozinhos e provavelmente a maioria das pessoas à vossa volta está a sentir o mesmo. A forma como tenho de lidar com isto é aquela que relatei no início do vídeo. Tentar falar com pessoas que fazem o mesmo que eu e discutir as minhas ideias e formas de trabalhar. Fazer perguntas e tentar não ter receio de me expôr e de parecer ignorante. E se calhar descobrimos que estamos a ser super competentes e que é só da nossa cabeça, se calhar descobrimos que nos estava mesmo a escapar alguma coisa. Em qualquer um dos casos, aprendo sempre alguma coisa valiosa.