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O porquê de algumas coisas serem virais

O meu vídeo sobre pessoas incompetentes ultrapassou as duas milhões de visualizações no facebook e eu queria dissecar a razão do porquê. Alerta de spoiler: não tem absolutamente nada a ver comigo.

Em 2001, um serviço de internet americano teve de bloquear o acesso a um site de um homem chamado Ze Frank. O site tinha tanto tráfego que, na perspectiva deles, só podia ter ou pornografia ou downloads ilegais. Não tinha nenhum deles. O que tinha era uma animação super simples do Ze Frank a ensinar passos de dança com nomes cómicos. O Ze enviou aos amigos um e-mail com um convite para a sua festa de aniversário e nesse e-mail estava o link para essa animação. Os amigos acharam tanta piada aquilo que fizeram forward do e-mail. E assim sucessivamente. Esse e-mail foi partilhado milhões de vezes numa era pré redes sociais. A razão pela qual vos estou a contar isto é porque esse e-mail é considerado um dos primeiros exemplos – talvez o primeiro – de um viral na internet. Posteriormente, o Ze Frank tornou-se um dos primeiros youtubers e uma referência no tópico da viralidade. Hoje é o responsável por todo o departamento de vídeo do Buzzfeed (Tasty incluído) em que geraram, só no ano de 2017, 65 mil milhões de visualizações de vídeo.

Porque é que os vídeos do buzzfeed têm tantas partilhas?

Para responder a esta pergunta, a malta de análise de dados do buzzfeed mergulhou nesses milhões de visualizações e descobriu o factor mais importante para gerar partilha: identidade.

Descobriram que os conteúdos com maior probabilidade de serem partilhados são aqueles que reflectem a identidade da pessoa que partilha ou que lhes lembram a identidade de outros. São conteúdos que dizem algo sobre nós – ou sobre os outros – que não somos capazes de exprimir por palavras.

No livro Start With Why, o Simon Sinek descreve o porquê da dificuldade de explicarmos por palavras as nossas emoções e decisões. A zona do nosso cérebro onde são formadas as emoções e tomadas as decisões é o sistema límbico. A zona onde se forma a linguagem é o Neocórtex. Estas duas zonas não comunicam entre si. Daí ser tão difícil explicarmos aquilo que sentimos ou o porquê de termos tomado uma certa decisão.

O Simon Sinek teoriza que, numa compra, as pessoas compram o porquê de uma marca fazer algo e não aquilo que a a marca faz. Porque, segundo ele, o acto da compra é um acto de puro egocentrismo por parte do consumidor. Uma pessoa compra algo porque aquele produto diz algo sobre si. É a representação física de algo em que a pessoa acredita.

É a razão pela qual as pessoas adoram abrir os seus macs em sítios públicos. Aquela maçã diz algo sobre elas. Um sentimento ou uma sensação que elas nem conseguem colocar em palavras mas que representa algo que elas acreditam sobre si próprias. Depois de ler este livro, sempre que vejo alguém na rua a usar roupa de uma marca penso: “ao usar esta marca, o que é que esta pessoa está a tentar dizer sobre ela?”. É um bom exercício.

Eu penso que o acto de partilhar um vídeo na internet obedece à mesma lógica. Um dos vídeos mais partilhados de sempre do buzzfeed é sobre as dificuldades de ser canhoto. O vídeo foi altamente partilhado por canhotos que encontraram nesse conteúdo uma forma de expressarem quem são. O vídeo também foi partilhado por amigos de canhotos que, quando o viram, se lembraram do amigo canhoto e portanto partilharam no seu perfil. Nota tangencial: tenho um amigo anão e sempre que sai uma notícia sobre anões, imensa gente o identifica ou partilha no perfil dele. Como se ele precisasse de saber tudo o que acontece no mundo sobre anões.

No caso do meu vídeo da incompetência, milhares de pessoas partilharam o vídeo e escreveram que aquilo lhes lembrava alguém. Quer seja um colega, patrão ou um político, muita gente viu o vídeo e identificou alguém. Partilharam-no porque aquele vídeo foi a representação física de um sentimento que elas tinham que não conseguiam exprimir por palavras. Ninguém partilhou o vídeo por minha causa. Eu fui apenas o veículo da ideia.

A identidade é, portanto, um factor enorme para gerar partilhas. Mas há outros. No caso do Ze Frank a dançar foi a comédia e o facto de nunca ninguém ter visto nada assim na internet. Sabem a história do Marilyn Manson ter tirado uma costela? Uma história que foi viral em muitas escolas do mundo durante os anos 90. Ninguém a partilhou porque se identificavam com isso mas sim porque era algo fora do normal. Há muitos factores que levam à partilha mas um dos maiores, e aquele que levou o meu vídeo a 2 milhões de visualizações, foi a identidade.