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O Programa

O Programa #001 – Pedro Pais (Belém Art Fest)

Neste episódio falamos sobre:

– Organização de um festival
– Como sobreviveram ao prejuízo e às dívidas
– Os erros cometidos
– A entrada em jogo da Everything Is New
e muito mais!

Este é um podcast em que falo com pessoas que estão a construir empresas sobre o que podemos aprender com a experiência delas

Com apoio Crossfit Restelo e BOUNCEinc

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Avulso

O Problema do Narcos

“Quando vês o Narcos não ficas cheio de vontade de ser narcotraficante?” dizia-me uma amiga minha. Gosto bastante da série Narcos. É entretenimento do mais alto nível e o Wagner Moura está excepcional. No entanto, a série tem um grave problema. Mas para poder escrever sobre ele tenho de recuar um pouco mais na história:

Quando qualquer cineasta decide pegar no tema do Holocausto debate-se com um grande problema: Como é que se representa o Holocausto? Como é que se põe numa “caixinha” algo tão extremo, complexo, obsceno e trágico? Há muitos estudiosos da representação do Holocausto (e eu tive um deles como professor na faculdade – foi um semestre levezinho sobre o Holocausto como podem calcular) porque há a clara consciência de que é preciso um grande sentido de responsabilidade ao tocar neste assunto. É a forma como as pessoas vão lembrar e entender algo de extrema importância.

Muito resumidamente, há duas grandes problemáticas na representação do Holocausto:

1) A objectificação das vítimas
Sempre que se mostra uma vala comum cheia de cadáveres ou uma multidão a entrar numa câmera de gás. Isso é objectificar as vítimas. É representá-las como uma massa incógnita. Homógenea. Cria distanciamento emocional.

2) A romantização dos Nazis
Um terreno altamente complexo. Por um lado, pode-se humanizar demasiado a personagem, criando empatia com o espectador. Por outro, pode-se fazer dela quase um desenho animado, como no Indiana Jones, retirando-lhe a gravidade dos actos. Por outro ainda, há o conhecido efeito psicológico sobre a atracção da audiência por vilões. Veja-se The Joker, Hannibal Lecter, Darth Vader. Sentimo-nos atraídos por vilões porque eles são capazes de fazer aquilo que nós nunca conseguiríamos/poderíamos. Reflectem o nosso lado mais negro. É altamente perigoso, numa representação do Nazismo, criar este efeito.

Isso faz-me chegar ao Pablo Escobar. Tem havido, nos últimos anos, e com ponto alto no Narcos, um processo de “cool-ificação” da figura do Escobar. A frase que a minha amiga me disse e que abre este texto faz todo o sentido. Porque a representação que é feita do Escobar cria essa imagem. Ele é omnipotente. Mas também é altamente humano com a família. A personagem é humanizada e é-lhe dado o aspecto cool de quem pode tudo. As suas vítimas são praticamente “inexistentes”. Sabemos que ele coloca bombas em todas as esquinas e que os seus sicarios matam a torto e a direito. Mas pouco mais. O lado verdadeiramente cru e duro da destruição que ele provoca nunca nos é mostrado. E quando é mostrado – como na cena em que o Escobar dança com a mulher enquanto os seus sicarios matam dezenas de polícias pela cidade – as vítimas são objetificadas e o vilão glorificado de forma cool.

Na realidade, estima-se que o Pablo Escobar tenha sido responsável pela morte de entre 5 mil a 10 mil pessoas. Dos quais 2800 polícias.
Constantemente oiço pessoas a falar do Pablo Escobar como uma espécie de herói do povo. Um empreendedor que vindo do nada chegou a 7º homem mais rico do mundo. Um ideal de self made man. Um Che Guevara/Robin dos Bosques anti poder. Não foi. Foi um assassino em massa. Mas a culpa não é de quem pensa isto. É da forma irresponsável como o Escobar é representado na cultura popular. A série, como entretenimento, continua a ser muito boa. Mas há que ter noção disto.

P.S: só vou no início da segunda temporada. Quem comentar com spoilers vai levar com a visita de um sicario.

P.S: o Wagner Moura é mesmo um grande, grande actor.

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Avulso

Maria Vaidosa

Dei por mim a gastar 5€ numa revista sobre moda, maquilhagem e lifestyle só para folhear isto com os meus próprios olhos. Uma youtuber portuguesa lançou uma revista. Acho absolutamente revolucionário uma youtuber lançar-se para o mercado editorial em Portugal. Não é novo uma personalidade lançar uma revista – Cristina, Júlia – mas uma personalidade “da internet” fazê-lo é algo completamente novo.

O design está impecável. O trabalho comercial está fortíssimo, repleto de “product placement” de uma ponta à outra, inclusivé uma página inteira de publicidade ao Samsung S8, o que mostra a seriedade com que as marcas estão a levar “uma revista de uma youtuber”. A revista saiu hoje e foi anunciada ontem, de surpresa, no canal dela. O instagram oficial da revista, só em tráfego vindo do instagram dela, passou de 0 seguidores ontem à noite para + de 8 mil neste momento (14h).


Como diz o Jeff Bezos, CEO da Amazon, “as ideias não são disruptivas. Apenas a aceitação do público a essas ideias é que é disruptiva”. No caso d’ A Maria Vaidosa, apenas resta saber se o público irá aceitar a revista e se irá causar “disrupção” às vendas e receitas de publicidade da concorrência do mesmo segmento. Espero que sim. Acho tudo isto fascinante!

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Avulso

O Paradoxo da Amizade

Imaginem que um amigo vosso lança um produto/serviço. Por exemplo, um festival. Se um gajo organiza um festival, alguns amigos vão tentar cravar-lhe bilhetes de borla. Visto que o sucesso de um negócio está dependente das suas vendas, as pessoas vão prejudicar o amigo ao cravarem. No entanto, se o festival for organizado por um desconhecido, já nem lhes passa pela ideia tentar cravar. Ou seja, paradoxalmente, as pessoas colocam os amigos numa situação de prejuízo em que nunca sequer ponderariam colocar um desconhecido.

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Avulso

País Irmão

Hoje estreia uma nova série da RTP – no seguimento da boa aposta da RTP em séries – chamada “País Irmão”. Depois vai estrear a “1986” escrita pelo Markl. E logo a seguir a “Criação”, uma comédia sobre uma agência de publicidade.

Em relação às 3 séries, só soube da existência delas porque sigo e/ou conheço algumas das pessoas envolvidas na produção e que postaram sobre isso. Não vi publicidade na TV porque não vejo publicidade na TV. Ou porque quando mal começa a publicidade eu olho para o telemóvel ou porque a “salto”. Em nenhuma das séries fui “alvo” de publicidade quer seja no facebook ou no instagram. E eu sou exactamente o público alvo para séries de televisão.

Logo, de que é que serve à RTP apostar (e bem) em novas formas de conteúdos se depois não faz um esforço para as publicitar nos sítios onde de facto as pessoas estão de olhos postos? E por serem séries de “género” era meio caminho andado: A 1986 é sobre os anos 80: targetting a quem segue o Stranger Things, o Nuno Markl, aqueles clássicos dos anos 80 e aquela faixa etária que sentirá a nostalgia dos anos 80. País Irmão é sobre política e jornalismo. Targetting a quem segue o House of Cards, Veep, Newsroom, etc. Ou qualquer outro tipo de séries e filmes que achem que são similares às séries em questão!


Criar novos conteúdos para ir buscar o público que se afastou da TV generalista em prol do cabo, gravações da box ou streaming online é uma óptima iniciativa. Mas para isso é preciso usar métodos que cheguem às pessoas que estão fora do alcance da esfera do canal (RTP1e2, rádios da estação e alcance orgânico do facebook do canal). É preciso investir em marketing! Por alguma razão os filmes de Hollywood têm orçamentos de marketing de valores similares aos orçamentos de produção. Porque há a perfeita consciência de que não chega só fazer. É preciso fazer chegar às pessoas.


Ainda por cima o primeiro episódio de uma série é de importância extrema. Todo o marketing, com semanas (meses?) de antecedência devia estar focado em sentar as pessoas à frente da TV para o primeiro episódio. O primeiro episódio tem de ser um “happening” de que toda a gente ouviu falar. Porque se uma pessoa só descobre a existência da série ao segundo episódio e não percebe nada da história: já foste.

P.S: Não escrevo este texto em tom de crítica mas sim porque gostava muito de ver estas séries a terem sucesso! Há gente muito talentosa envolvida e era óptimo para o futuro da ficção portuguesa. Mas é preciso que na RTP haja noção de que não chega fazer. É preciso fazer chegar às pessoas.

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Avulso

Twin Peaks – Série 3

A arte deve dar respostas ou criar perguntas? Creio que esta pergunta é essencial para compreender o final do Twin Peaks. Vi o final e estou há duas horas a tentar criar um fio condutor para entender o que se passou. Tenho uma interpretação que me faz sentido. Já ouvi de outras pessoas diferentes interpretações que também fazem sentido. Mas em qualquer uma delas há peças soltas que não encaixam.

No início de um filme narrativo cria-se uma interrogação na forma de um conflito. “Será que o protagonista vai conseguir X?”. Na linha americana, em 99% dos casos, o protagonista sucede. Resolveu-se o conflito. Responde-se às perguntas. Final feliz. Dá uma sensação de satisfação ao espectador.


Numa linha mais europeia (e muito portuguesa), não há especial interesse em oferecer uma satisfação final ao espectador nem finais felizes. A linha europeia, mais do que respostas, gosta de desafiar, provocar e deixar perguntas.


Neste final do Twin Peaks sinto-me dividido. Por um lado, gostava que tivesse havido respostas. Que não houve. Gostava daquela satisfação. Por outro, adoro esta sensação de estar aqui a matraquear sobre “que raio é que eu acabei de ver?!”. De tentar juntar as peças, tão confusas, e de tentar dar significado ao puzzle.


Longe de mim querer afirmar que este regresso do Twin Peaks tenha sido ou não arte. Não consigo sequer dizer se gostei tal como não consigo dizer que não gostei. Na verdade não sei bem o que dizer. Mais do que da história gostei muito de ver um criador a esticar a corda do que são os paradigmas e regras de um meio (TV). Porque estes 18 episódios podem ser acusados de tudo menos de uma coisa: de serem parecidos com alguma outra coisa que já tenha sido feita.

P.S:
Um episódio que adorei: o 8. Um cocktail de duas partes metáfora, duas partes cinema de terror experimental, agitado, com gelo e finalizado com uma azeitona de lsd.

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Avulso

Traficante de Instagram

Ser um traficante de perfis de instagram em 5 passos:

1) Cria um perfil com o nome de uma marca famosa acrescentando pontos e a palavra “oficial” e/ou “portugal”. Ex: @adidas.oficial.portugal.oficial
2) Escreve na bio que pelo lançamento do instagram da marca em Portugal a marca decidiu oferecer vouchers de X euros (uma quantia elevada para ser aliciante) aos primeiros x mil seguidores.
3) Indica também que as pessoas têm de partilhar um print screen do perfil da marca na sua story taggando a marca.
4) Deixa os paparucos que acreditam que uma marca internacional iria oferecer vouchers de 50€ ou viagens de avião em troca de ter seguidores chegarem aos magotes.
5) Quando o perfil tiver a quantidade de seguidores que pretendes, vende-o. O comprador irá mudar o nome e as fotos e nunca ninguém irá saber.

Parabéns! És oficialmente um insta dealon. Dá menos chatice que vender oregãos na baixa.

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Avulso

Mad Men

Há uma coisa fascinante no Mad Men. É estarmos a ver uma ficção sobre pessoas que estão elas próprias a viver uma ficção. A série é sobre uma agência de publicidade nos anos 60. Mas é sobretudo sobre os costumes da altura.

Sobre as crianças brincarem com sacos de plástico na cabeça. Sobre ninguém usar cintos de segurança. Sobre as maneiras. Sobre todos fumarem e ser perfeitamente normal um pai bater no filho de outro. Sobre o papel que os homens e as mulheres julgam que têm de desempenhar na sociedade. Sobre o profundo racismo e sexismo, perfeitamente aceitável e normativo, da altura. E o que é isso senão uma ficção criada em comunidade e auto-imposta?

Isto lembra-me um livro sobre estudos de género chamado Gender Trouble em que a autora, Judith Butler, teoriza que os géneros sexuais são uma questão de “representação”. Ou seja, o homem age como homem porque interioriza que tem de “representar” aquele papel. Papel esse que tem determinadas características. A mulher a mesma coisa. Isto é claro no retrato dos anos 60. O homem bebe durante o dia e trabalha na cidade. A mulher fica em casa, nos subúrbios, a cuidar da casa e dos miúdos. O homem é o decisor de tudo. A mulher fala com cuidado para não o irritar. O homem ou esteve no exército ou esteve na universidade. Uma mulher divorciada mudar-se para um bairro novo vai desvalorizar as casas desse bairro.

Há uma auto-imposta (e socialmente imposta) representação de um papel. E se isto é verdade, não serão os costumes de todas as décadas apenas uma ficção? Sendo mais fácil observar dada a distância crítica para os anos 60, não serão os nossos costumes actuais e papéis que representamos apenas uma ficção que impomos a nós próprios e aos outros?

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Avulso

Comprar Seguidores

Sobre o porquê de comprar seguidores ser extremamente estúpido e Como é que uma empresa se pode defender contra “influencers” que o fazem:

Às vezes vejo algumas contas de instagram de certos portugueses e penso “mas como é que este gajo tem tantos seguidores?”. Clico na lista de seguidores da pessoa e são enxurradas disto que aparece aqui na foto: milhares de seguidores falsos (e esta foto é de um insta tuga).

Há uma razão muito importante para não se comprar seguidores. E aconteceu, principalmente, desde que o feed do instagram deixou de ser cronológico e passou a obedecer ao mesmo algoritmo do facebook. Passo a explicar: assim que fazes um post só uma pequeníssima percentagem dos teus seguidores vê o teu post e, à medida que vai tendo interacções, o instagram/facebook considera-o um “bom conteúdo” e mostra-o gradualmente a mais pessoas. O que é que acontece se tiveres milhares de seguidores falsos?

A grande probabilidade é que a tal pequeníssima percentagem de pessoas que vai ver o teu post assim que o postas seja falsa. Ou seja, ninguém. E se ninguém interagir com o teu post o alcance dele não vai aumentar. Ou seja, ninguém real vai ver os teus posts. Nunca.


O número de seguidores é o que se chama uma “métrica de vaidade”. Serve para dizeres às pessoas que tens muitos seguidores. Serve para ires bater à porta de empresas e pedir borlas e dinheiro em troco de exposição. Como é que uma empresa se pode defender contra estes “influenciadores” da treta? Uma forma é através do Engagement Rate. O Engagement Rate é uma percentagem que resulta do número de interacções que um post teve (likes, comments, shares) sobre o alcance que esse mesmo post teve. O Engagement Rate é uma métrica valiosa porque nos mostra o grau de verdadeiro interesse que existe entre os seguidores e o seguido. Uma pessoa que comprou seguidores pode ter 50 mil seguidores mas o seu Engagement Rate vai ser muito, muito baixo. Uma empresa que esteja a pagar ou a oferecer produto a um destes influenciadores está a deitar dinheiro/produto à rua.


Para o seguinte exemplo, visto que não tenho os valores do alcance de cada post, irei usar o número de seguidores como referência. Portanto (likes+comments+shares) sobre número de seguidores e o resultado disso vezes 100.
Segundo a Union Metrics um engagement rate médio no instagram está nos 2.3%.
As últimas 3 fotos que a Cristina Ferreira postou no insta tiveram um ER de: 2,7%, 1,5% e 4,1% (acima da média)
As últimas 3 fotos que a youtuber tuga Maria Vaidosa postou no insta tiveram um ER de: 10%, 7,8% e 8,6% (loucamente alto – até fiz as contas 3 vezes – do caraças)
As últimas 3 fotos que o youtuber tuga Tiagovski postou no insta: 7,6%, 9,2% e 8,6% (loucamente alto – do caraças)
A conta de insta de onde tirei esta foto, as últimos 3 fotos tiveram um ER de 0,3%, 0,3% e 0,5%.
Por isso, não comprem seguidores. É feio, não é bonito. E não se deixem papar por quem compra seguidores.