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A melhor ideia de sempre

Em 1796, um cientista inglês chamado Edward Jenner teve a seguinte simples observação que, sem ele saber, viria a mudar o curso da história: ele reparou que as milkmaids – as empregadas que ordenhavam as vacas e preparavam o leite (como esta celebremente retratada pelo Vermeer) – eram estranhamente imunes ao vírus da varíola.

Quando se fala em grandes assassinos, algumas pessoas mencionam Hitler, outras Estaline ou até mesmo o cancro. Mas ninguém fala da Varíola. Só no século XX, a varíola foi responsável pela morte estimada entre 300 a 500 milhões de pessoas. 4 em cada cinco crianças infectadas morriam.

As milkmaids costumavam ter pústulas no corpo por apanharem a “varíola das vacas”, uma doença semelhante mas menos violenta que a humana. E o Edward Jenner, sentado em sua casa, colocou a seguinte pergunta: será que por apanharem uma versão mais light da doença, as milkmaids ficam imunes à varíola?

Essa pergunta mudou tudo.

A 14 de Maio de 1796 o Edward Jenner testou a sua hipótese. Retirou pús das mãos de uma milkmaid, chamada Sarah Nelmes, infectada pela varíola das vacas e infectou o filho do jardineiro, James Phipps de 8 anos. O rapaz teve apenas uma febre. Mais tarde, o cientista infectou o rapaz com o vírus humano da varíola. Nada aconteceu. O miúdo estava imunizado. Foi a primeira vez que foi provado e demonstrado que o pús da Varíola das vacas criava imunidade à Varíola humana. O nome latim para “varíola das vacas” é “Variolae vaccinae” e é daí que vem a palavra “vacina”.

O Edward Jenner tinha criado a primeira vacina.

O cientista é considerado um dos pai da imunologia e dizem que o seu trabalho “salvou mais vidas do que o trabalho de qualquer outro humano”.

Mesmo na altura, o seu trabalho foi tão amplamente falado que, mesmo estando a França em guerra com a Inglaterra, o Napoleão mandou vacinar todas as suas tropas e condecorou o Edward Jenner. Aceitou ainda libertar dois prisioneiros de guerra a pedido do cientista dizendo que “não poderia recusar nada a um dos maiores benfeitores da humanidade”.

A vaca cuja varíola foi usada chama-se Blossom e há um quadro seu pintado e pendurado na bibioteca da Universidade de Medicina de St. George.

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Um apelo aos influencers

Tens milhares de seguidores e uma marca fala contigo pela primeira vez para promoveres o produto X. Tu adoras aquele tipo de produtos. O teu entusiasmo sobre o produto X passa aos teus seguidores. É genuíno. Agora põe-te nos pés das pessoas que te seguem. Como gostam de ti possivelmente ficaram contagiadas com o teu entusiasmo com o produto X. Faz todo o sentido estares a promover um skate eléctrico porque toda a gente sabe que sempre adoraste skates e fazes skate desde pequeno. Mas o que é que achas que vai acontecer se no dia seguinte ao skate estiveres a promover um relógio, e depois um restaurante, e a seguir cigarros electrónicos?

O Seth Godin, um dos maiores pensadores do marketing, diz que as duas pedras basilares da economia moderna são a confiança e a atenção. O marketing de influência funciona por causa disto. É essa a razão pela qual se colocou celebridades a fazer anúncios de TV. Tu tens a atenção e a confiança das pessoas que te seguem.

Mas a confiança é um recurso curioso. Estiveste anos a criar conteúdos que criaram em mim uma imagem de quem tu és. Essa imagem é a tua marca, a tua reputação. Estiveste a trabalhar esta relação comigo para que eu ganhe confiança em ti. Mas, num estalar de dedos, podes perdê-la. A confiança gasta-se.

Todos os grandes produtores de conteúdos da internet dizem que a parte mais importante do que fazem é o seu público. É criar coisas para as pessoas. Ao ponto de fazerem conteúdos que os seus seguidores pedem. É uma relação bidireccional.

Mas não é assim que eu me sinto quando vejo alguém que todos os dias promove um produto diferente como se o seu perfil fosse o catálogo de uma loja. Eu deixei de acreditar em ti. Eu não acredito que uses aquilo. Eu não acredito que gostes daquilo. Só me estás a usar para teu proveito. Para encheres os bolsos à minha custa. Deixou de ser sobre o público. Passou a ser sobre ti. Essa, na minha opinião, vai ser a “morte do artista” digital.

E eu não estou a dizer para não aproveitares e usares os teus canais para ganhar dinheiro. Nada disso. Eu só te quero dizer para seres muito inteligente na forma como usas os créditos da confiança que as pessoas têm em ti. Porque ela não volta. Se me queres vender alguma coisa diz-me a verdade. A tua opinião verdadeira sobre o produto. O bom e o mau. Vê o exemplo dos youtubers de tecnologia e de maquilhagem. As marcas deles cresceram a falar da sua opinião verdadeira sobre os produtos. A câmera da frente tem boa qualidade ou é um ponto fraco? E o tempo de bateria? O protector solar deixa um cheiro fixe na pele ou é um bocado gorduroso nas mãos? Se eu comprar o produto vou descobrir isso tudo sozinho. E tu podes ter sido a pessoa que me ajudou na minha escolha ou a que se limitou a escrever a descrição que te mandaram e não me disse a verdade.

E podem dizer “ah mas uma marca não vai querer que eu fale das coisas que eu ache menos boas”. Ok. Mas então o que é que te faz querer dar a cara sobre algo pela qual tens de mentir?

A confiança das pessoas que vos seguem é o vosso poder. Não vendam a vossa confiança ao desbarato. Por borlas e a todas as marcas que vos oferecem tuta e meia. Por mais marcas que queiram acesso à confiança que os vossos seguidores têm por vocês, vocês é que estão no controlo. E sabem o que é que acontece a alguma coisa que muita gente quer e quase ninguém consegue ter? Torna-se muito mais valiosa.

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Impostores

“Eu vivo constantemente com receio de me estar a escapar alguma coisa. Posso fazer-te umas perguntas sobre a forma como tu trabalhas?”. Foi esta a mensagem que enviei a uma pessoa que dirige o marketing de uma conhecida empresa aqui em Lisboa.

Fomos almoçar e eu partilhei aquilo que estou a fazer e ela explicou-me os processos dela. Acabei o almoço muito mais confiante, não só por estar a ter uma validação de um par, mas também por ter percebido que ela, muitas vezes, sente o mesmo que eu. Estamos todos a tentar perceber como é que “isto” se faz. Sendo o “isto” o trabalho ou a vida. Numa altura em que está super na moda exibir o quão confiantes e no controlo estamos do nosso lado profissional – e eu tendo sempre a desconfiar de quem se mostra muito confiante e com a respostas todas – é bom descobrir que há pessoas super competentes que também se sentem inseguras.

Em 1978 as psicólogas americanas Pauline Clance e Suzanne Imes publicaram um artigo chamado “The Imposter Phenomenon in High Achieving Women”. Foi assim que elas descreveram o “fenómeno do impostor”: ‘uma experiência interna de falsidade intelectual que parece particularmente intenso em grupos de mulheres de sucesso. Apesar de atingirem feitos excelentes a nível académico ou profissional, algumas mulheres sentem o fenómeno do impostor e acreditam que não são verdadeiramente brilhantes e que enganaram toda a gente a pensar que elas são”. As duas psicólogas escreveram que uma pessoa que sente isto, mesmo quando lhe são apresentadas provas objectivas da sua superioridade intelectual, continua a acreditar que é uma impostora.

Em 93 já era aceite que o Síndrome do Impostor era algo que acontecia em todos os géneros e raças. A revista Forbes cita estudos que dizem que 70% das pessoas já tiveram esta sensação de não serem boas o suficiente para estarem a fazer o trabalho que estão a fazer em algum momento das suas vidas.

Alguns traços comuns do Síndrome do Impostor: achar que os colegas ou patrões sobre-estimam as nossas capacidades, uma pessoa obriga-se a trabalhar muito mais para acalmar a ansiedade de achar que não é competente, sentir que a qualquer momento os outros vão descobrir que somos uma fraude, auto-sabotagem por acharem que não merecem esse sucesso, evitam pedir aumentos porque não acreditam que são competentes no que fazem, recusam-se a celebrar os seus sucessos, entre outros.

O Howard Schultz, CEO da Starbucks, disse: “Muito poucas pessoas, quer tenham estado naquele emprego antes ou não, sentam-se naquele lugar e acreditam que têm qualificações para ser CEO. Não te vão dizer isto mas é verdade”.

Uma das psicólogas que escreveu o estudo original diz que, hoje em dia, se o escrevesse outra vez chamar-lhe-ia “a experiência do impostor” e não síndrome. Porque não acredita que é verdadeiramente um síndrome nem uma doença mental. É “apenas uma coisa que quase toda a gente experiencia”.

Decidi fazer este vídeo por causa do alívio que senti depois daquele almoço. Se houver mais gente por aí a sentir-se assim, a sentirem que vos está a escapar alguma coisa, vocês não estão sozinhos e provavelmente a maioria das pessoas à vossa volta está a sentir o mesmo. A forma como tenho de lidar com isto é aquela que relatei no início do vídeo. Tentar falar com pessoas que fazem o mesmo que eu e discutir as minhas ideias e formas de trabalhar. Fazer perguntas e tentar não ter receio de me expôr e de parecer ignorante. E se calhar descobrimos que estamos a ser super competentes e que é só da nossa cabeça, se calhar descobrimos que nos estava mesmo a escapar alguma coisa. Em qualquer um dos casos, aprendo sempre alguma coisa valiosa.

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Em Portugal não se gosta de vender

Uma pessoa minha conhecida queria comprar novos computadores para a empresa. Fez vários pedidos de orçamento. A um deles perguntou se um certo tipo de discos rígidos estavam incluídos ou não. A resposta do vendedor, por e-mail, foi “Tem de comprar à parte.” ponto final. Só. Mais nada.

Há uns dias fiz vários pedidos de orçamento em várias gráficas em Lisboa e em Londres. 6 em cada uma das cidades. Todos os pedidos por e-mail. Todas as gráficas em Londres me responderam. Apenas uma em Lisboa o fez. As de Londres até e-mails de follow up fizeram a perguntar se eu ainda estava interessado e, quando souberam que eu não estava, respondiam a agradecer e a dizer para falar com eles sempre que precisasse. Das lisboetas recebi, na maioria, silêncio.

O gajo dos computadores perdeu a oportunidade para dizer “Tem de comprar à parte mas tem aqui estas opções X e que lhe compensam por Y”. Se calhar até podiam nem ter eles esses discos mas diziam “Olhe, não temos mas posso indicar-lhe um contacto que a poderá ajudar e que tem e blábláblá”. Ele até podia nem ter o contacto mas ia descobrir quem é que tinha aqueles discos ao melhor preço para ajudar o potencial cliente. Porque a pessoa pode não se tornar um cliente a curto prazo mas aquela pequena ajuda pode tornar o vendedor uma pessoa de referência/confiança para qualquer outra coisa no futuro.

A base do marketing e das vendas não é, ou deveria ser, criar relações?

Suponho que seja uma questão de cultura. A Web Summit responde, geralmente, aos e-mails enviados para o info em 24 horas. Os ingleses têm uma expressão óptima para isto que não existe em português: o “customer care”. A Web Summit podia bem passar sem me responder ao e-mail em que eu pergunto a que horas abre o check-in do aeroporto. De todos os “graus” de clientes deles eu estarei no fim da cadeia. Não era por isso que eu deixaria de ir ao evento e, dada a envergadura do mesmo e tendo eu o chip tuga na cabeça, até acharia normal não me responderem. Há serviços em que eu sinto que se preocupam (“care”) comigo enquanto cliente. Com esses é muito mais confortável negociar. Que haja gente que em 2018 ainda não percebeu isto é “mind blowing”.

Quando precisar de uma gráfica em Lisboa já sei a qual é que vou. À única que me respondeu.
Eu juro que não percebo. Ou está tudo muita bem na vida e não precisam ou então não percebo.

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Cunhas, Media e Influencers

A TVI anunciou uma nova série dos Morangos com Açucar com a participação de duas personalidades do instagram, que não são actores, e gerou-se logo uma “polémica do dia” sobre cunhas e se estas pessoas “merecem”. Deixem-me oferecer-vos outra perspectiva:

Em 2003, quando sai os Morangos com Açucar, não existia youtube nem instagram. Na televisão, para um puto, só havia os Morangos, a Malhação ou o Curto Circuito . A internet era, essencialmente, o Msn, o hi5 e o site hi5 porcas.

Mas hoje em dia a atenção está fragmentada. Está no instagram, no snapchat, no tiktok ou no youtube, entre outros. Dentro desses espaços está ainda mais fragmentada em milhões de sítios. Segues x e y. O outro segue z.

Como é que acham que a TVI vai divulgar esta nova série ao seu publico alvo? Através de anúncios na televisão que eles não estão a ver? Através de outdoors para onde eles não estão a olhar?

Ir buscar personalidades digitais para o elenco da série é a coisa mais inteligente que a TVI poderia fazer.

Isto é um fenómeno muito interessante e revelador do estado dos media “tradicionais”. O Curto-circuito, por exemplo, começou a ir buscar à internet alguns dos seus apresentadores. O Conguito, a Bumba na Fofinha e depois o Sensivelmente idiota.

Foi-me dito que os programas com mais audiências são aqueles em que determinados youtubers são os convidados/entrevistados. Isto marca uma clara distinção no tempo. As pessoas costumavam ir à tv para ganharem exposição. Um programa de tv era o gerador de atenção para o indivíduo. Neste momento, o indivíduo – através da sua base de dados de seguidores – é o gerador de atenção para o programa.

Outros movimentos semelhantes podem ser vistos na rádio: com a contratação do Sena na Cidade e o Conguito e a Mafalda Castro na Mega. A mesma Mafalda Castro foi recentemente contratada pelo The Voice na RTP.

No publishing também: com a revista d’A Maria Vaidosa e a da SEA3PO (viram a fila monumental no Colombo para ela assinar autógrafos?).

Fazem ideia que algumas destas pessoas tem mais visualizações nas suas stories de instagram do que a maioria dos canais do cabo? E que, mesmo assim, esses canais cobram mais por expôr publicidade do que essas pessoas?

Sendo que é claro que alguns meios já perceberam isto, é da minha percepção que muitas destas “personalidades digitais” ainda não compreenderam verdadeiramente o poder que têm nas mãos. Porque assim que eles perceberem que, ao serem entrevistados num programa, as audiências sobem e o programa vai utilizar esses números para vender publicidade para se sustentar, vão perceber que o poder está todo do lado deles. O meio precisa deles e não o contrário. Acredito que num futuro bem próximo a mera ida de certos youtubers/instagrammers a um programa como entrevistados vá passar a ser uma presença paga.
Muito gente acha chocante as quantias de dinheiro que este mercado dos produtores de conteúdos digitais já mexe. Eu tenho a certeza que só estamos a ver a ponta do icebergue.

E podem dizer-me “mas ó Francisco, e isto não é injusto para os miúdos todos que estudaram representação/rádio/televisão?”. Imaginem-se a vocês ao leme deste negócio: a vossa empresa precisa de clientes para vender o vosso produto para pagar ordenados e deixar os accionistas felizes. Querem preencher uma vaga de emprego e têm dois candidatos. Um estudou e tem o diploma mas não tem carteira de clientes. O outro, não estudou e pode levar um atraso em termos de skills em relação ao primeiro mas, à partida, traz com ele uma carteira de clientes de 300 mil pessoas que vos vai deixar exponencialmente mais perto do objectivo. Digam-me nos comentários qual deles é que vocês escolhiam.

Se calhar a pergunta não devia ser sobre a injustiça de escolher um ou outro mas o que é que vocês podem fazer para não se deixarem ultrapassar.

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Confiem em mim. Estou a mentir.

Há uns anos um gajo chamado Ryan Holiday, profissional de marketing, escreveu um livro muito interessante chamado “Trust Me. I’m Lying”. O livro é sobre manipular os media. Como conseguir que os media falem de nós. Ele, para promover o filme independente de um amigo, filme esse que só ia estrear em poucas cidades nos estados unidos, foi, numa noite, vandalizar os cartazes do filme que estavam numa dessas cidades. Colou nos cartazes autocolantes que davam a entender que o filme era sexista. Tirou fotos aos cartazes e enviou-as, com um nome falso, para vários blogs e organizações de mulheres a dizer que3 aquele filme era sexista e que promovia uma “rape culture”. Os blogs publicaram sobre o assunto. Os blogs maiores viram as notícias dos blogs mais pequenos e publicaram. Os jornais nacionais apanharam a notícia dos blogs maiores e publicaram. As organizações de mulheres fizeram manifestações. O Ryan Holiday conseguiu criou um escândalo nacional e muito mais gente ouviu falar de um filme que, se não fosse isso, teria passado completamente ao lado.

O mesmo acontece com os “beefs” do hip hop. Eu não oiço hip hop mas graças a “beefs” sei quem é o Piruka, o Holy Wood e o Machine Gun Kelly.

A polémica cria caixas de ressonância.

Há um indivíduo tuga que, espertalhão a aproveitar a onda Trump/Bolsonaro, já pôs esta dinâmica em prática. O timing denuncia tudo.

Fundou esta semana um partido cujas “propostas” são aqueles lugares comuns fascisóides que resultam em soundbytes bombásticos e que incendeiam conversas.

“Antigamente”, um indivíduo destes só tinha tempo de antena se efectivamente fosse a eleições e, portanto, por lei, tinha aqueles minutos antes do telejornal para dizer as baboseiras que ele quisesse. Ou então tinha de gastar muito dinheiro em cartazes para expôr as suas ideias mirabolantes. A comunicação social não era caixa de ressonância desta gente. Ninguém os ouvia. Eles não cresciam.

Hoje em dia, nós, que publicamos revoltados ou a gozar com estas personagens, tornamo-nos a caixa de ressonância deles. Estamos a dar-lhes exposição, logo força, e a tornarmo-nos os arquitectos da nossa própria miséria.

A comunicação social pode publicar uma vez. Talvez duas. Mas se ninguém falar disso quantas vezes mais é que a comunicação social irá publicar sobre um assunto para o qual aparentemente ninguém quer saber? Penso que se ninguém der cliques, se ninguém comentar, se ninguém falar deles… poof. Desaparece. Não tenho a certeza disto, como ninguém poderá ter. É uma teoria. No entanto, a outra abordagem, a de fazer mil posts a “destruir” estas personagens, claramente não está a funcionar. “Os cães ladram e a caravana passa”. Neste caso nós somos os cães e muito mais gente fica a saber que a caravana está a passar porque ouve o ladrar.

Se ninguém falar do Fight Club, ninguém sabe que o Fight Club existe. Muito menos probabilidade do Fight Club conseguir mais sócios.

P.S: Não vou escrever nem o nome da pessoa, nem o partido que ele fundou, porque é exactamente o que ele quer.

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O porquê de algumas coisas serem virais

O meu vídeo sobre pessoas incompetentes ultrapassou as duas milhões de visualizações no facebook e eu queria dissecar a razão do porquê. Alerta de spoiler: não tem absolutamente nada a ver comigo.

Em 2001, um serviço de internet americano teve de bloquear o acesso a um site de um homem chamado Ze Frank. O site tinha tanto tráfego que, na perspectiva deles, só podia ter ou pornografia ou downloads ilegais. Não tinha nenhum deles. O que tinha era uma animação super simples do Ze Frank a ensinar passos de dança com nomes cómicos. O Ze enviou aos amigos um e-mail com um convite para a sua festa de aniversário e nesse e-mail estava o link para essa animação. Os amigos acharam tanta piada aquilo que fizeram forward do e-mail. E assim sucessivamente. Esse e-mail foi partilhado milhões de vezes numa era pré redes sociais. A razão pela qual vos estou a contar isto é porque esse e-mail é considerado um dos primeiros exemplos – talvez o primeiro – de um viral na internet. Posteriormente, o Ze Frank tornou-se um dos primeiros youtubers e uma referência no tópico da viralidade. Hoje é o responsável por todo o departamento de vídeo do Buzzfeed (Tasty incluído) em que geraram, só no ano de 2017, 65 mil milhões de visualizações de vídeo.

Porque é que os vídeos do buzzfeed têm tantas partilhas?

Para responder a esta pergunta, a malta de análise de dados do buzzfeed mergulhou nesses milhões de visualizações e descobriu o factor mais importante para gerar partilha: identidade.

Descobriram que os conteúdos com maior probabilidade de serem partilhados são aqueles que reflectem a identidade da pessoa que partilha ou que lhes lembram a identidade de outros. São conteúdos que dizem algo sobre nós – ou sobre os outros – que não somos capazes de exprimir por palavras.

No livro Start With Why, o Simon Sinek descreve o porquê da dificuldade de explicarmos por palavras as nossas emoções e decisões. A zona do nosso cérebro onde são formadas as emoções e tomadas as decisões é o sistema límbico. A zona onde se forma a linguagem é o Neocórtex. Estas duas zonas não comunicam entre si. Daí ser tão difícil explicarmos aquilo que sentimos ou o porquê de termos tomado uma certa decisão.

O Simon Sinek teoriza que, numa compra, as pessoas compram o porquê de uma marca fazer algo e não aquilo que a a marca faz. Porque, segundo ele, o acto da compra é um acto de puro egocentrismo por parte do consumidor. Uma pessoa compra algo porque aquele produto diz algo sobre si. É a representação física de algo em que a pessoa acredita.

É a razão pela qual as pessoas adoram abrir os seus macs em sítios públicos. Aquela maçã diz algo sobre elas. Um sentimento ou uma sensação que elas nem conseguem colocar em palavras mas que representa algo que elas acreditam sobre si próprias. Depois de ler este livro, sempre que vejo alguém na rua a usar roupa de uma marca penso: “ao usar esta marca, o que é que esta pessoa está a tentar dizer sobre ela?”. É um bom exercício.

Eu penso que o acto de partilhar um vídeo na internet obedece à mesma lógica. Um dos vídeos mais partilhados de sempre do buzzfeed é sobre as dificuldades de ser canhoto. O vídeo foi altamente partilhado por canhotos que encontraram nesse conteúdo uma forma de expressarem quem são. O vídeo também foi partilhado por amigos de canhotos que, quando o viram, se lembraram do amigo canhoto e portanto partilharam no seu perfil. Nota tangencial: tenho um amigo anão e sempre que sai uma notícia sobre anões, imensa gente o identifica ou partilha no perfil dele. Como se ele precisasse de saber tudo o que acontece no mundo sobre anões.

No caso do meu vídeo da incompetência, milhares de pessoas partilharam o vídeo e escreveram que aquilo lhes lembrava alguém. Quer seja um colega, patrão ou um político, muita gente viu o vídeo e identificou alguém. Partilharam-no porque aquele vídeo foi a representação física de um sentimento que elas tinham que não conseguiam exprimir por palavras. Ninguém partilhou o vídeo por minha causa. Eu fui apenas o veículo da ideia.

A identidade é, portanto, um factor enorme para gerar partilhas. Mas há outros. No caso do Ze Frank a dançar foi a comédia e o facto de nunca ninguém ter visto nada assim na internet. Sabem a história do Marilyn Manson ter tirado uma costela? Uma história que foi viral em muitas escolas do mundo durante os anos 90. Ninguém a partilhou porque se identificavam com isso mas sim porque era algo fora do normal. Há muitos factores que levam à partilha mas um dos maiores, e aquele que levou o meu vídeo a 2 milhões de visualizações, foi a identidade.

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O porquê das pessoas incompetentes acharem que são incríveis

Já conheceram alguém que claramente está a dizer um monte de baboseiras sobre um determinado assunto mas acha-se o maior da aldeia dele? Eu já. O porquê das pessoas incompetentes acharem que são incríveis está explicado pelo Efeito Dunning-Kruger.

Este estudo surgiu com origem num assalto a um banco. Em 1995, um homem chamado McArthur Wheeler, de cara destapada, assaltou um banco nos Estados Unidos. Passado umas horas, quando a polícia surgiu à porta de casa dele, o Senhor McArthur ficou estupefacto com ter sido descoberto e disse “mas eu usei o sumo”. O que ele queria dizer com isto é: o McArthur sabia que o sumo de limão era utilizado no fabrico de tinta invisível. Logo, na lógica da sua própria cabeça, se pusesse sumo de limão na cara as câmeras não o conseguiriam ver. Depois de uma avaliação psicológica, descobriram que ele nem estava drogado nem era louco. Era apenas absolutamente incompetente.

Com base nisto um professor de psicologia da Universidade de Cornell chamado David Dunning e um aluno seu chamado Justin Kruger elaboraram um conjunto de experiências que resultaram no efeito Dunning-Kruger: As pessoas incompetentes têm uma ilusão de superioridade em relação às suas capacidades. As pessoas incompetentes não têm as capacidades necessárias para avaliar objectivamente o seu nível de capacidades. Têm níveis muito baixos de “metacognição”. A capacidade de saber que sabemos. Ou seja, são inconscientes da sua própria ignorância.

Nas palavras de David Dunning: “Se fores incompetente, não podes saber que és incompetente. As capacidades que precisas para produzir uma resposta certa são exactamente as mesmas que precisas para reconhecer o que uma resposta certa é”.

Os estudos que os dois psicólogos fizeram em Cornell revelaram que os estudantes que ficavam no fundo da tabela das notas dos exames, auto-classificavam-se de forma muito superior à sua nota real. Em contraste, o grupo com melhores notas, subvalorizava-se. Pessoas com um conhecimento sobre um certo tema tendem a ser pouco confiantes sobre o seu nível de conhecimento.

Porque têm conhecimento suficiente para saber que há muito que não sabem.
Todos tivemos aquele colega a quem os testes corriam sempre “muita mal” e depois tinham 20. Efeito Dunning-Kruger.

E é aqui que isto fica interessante: quando estamos a dar a nossa opinião sobre um determinado tema do qual temos 100% de certezas, como é que sabemos que não estamos sob este efeito e completamente inconscientes da nossa própria ignorância? E no sentido inverso, se estivermos inseguros da nossa opinião, como é que sabemos que não estamos sob este efeito e na realidade absolutamente correctos do que vamos dizer? Isto é incrível!

No meu caso pessoal tento não sucumbir a isto ao estar constantemente a tentar aprender mais. Quer seja a ler, ouvir podcasts, conhecer pessoas novas ou investir em formações. Tentar sempre comparar o meu conhecimento com o de outras pessoas de referência na área e fazer-lhes mais e melhores perguntas. Mesmo que isso me faça passar por ignorante. E vocês, têm alguma dica ou técnica pessoal que usem no vosso dia a dia?

Nas palavras que são atribuídas ao filósofo inglês Bertrand Russell: “Uma das raízes de problemas no mundo é que os estúpidos estão cheios de certezas e os inteligentes cheios de dúvidas”.

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Social Chain – Newsletter

Eu adoro esta newsletter de whatsapp. Chega todos os dias por volta das 11h com as melhores notícias do dia sobre marketing, digital e social. Caso tenham interesse, podem seguir este link e tem lá as instruções todas para subscrever: https://bit.ly/2uy4nZg

P.S: a empresa que a faz chama-se Social Chain e é das maiores empresas de social no UK. Fun fact: A empresa nasce porque várias pessoas (miúdos!) que tinham contas gigantes de Instagram (na sua maioria memes) decidiram juntar-se. Os milhões de seguidores que tinham entre todas as contas eram tráfego garantido para qualquer coisa que eles quisessem promover. A partir daí foi uma bola de neve e agora são enormes a fazer campanhas de social para grandes empresas

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Sobre a campanha de influenciadores que a Sagres está a fazer no NOS Alive

Bastante interessante a campanha de influenciadores que a Sagres está a fazer durante o Alive. O que está a acontecer são posts constantes de instagrammers a beberem Sagres ou com/sobre a Sagres. O que acho interessante nesta ação é pensar no que terá levado a Sagres a fazer isto. Que pode ter sido, na minha opinião: o naming partner do festival tem sempre a maioria da exposição (e paga para isso). As pessoas falam e postam sobre o NOS Alive ou sobre “o NOS”. Tal como no SBSR dizem que vão “ao Super Bock”. A maioria dos posts mencionam o naming partner ou elementos cénicos criados para que as pessoas tirem lá fotos. Pouco se falava da Heineken como cerveja do Alive. Era também o nome do “palco secundário”. Mas tudo isso eram pormenores. A Heineken era “engolida” por todo o aparato NOS. O que pode ter acontecido com a Sagres, de forma bastante inteligente, é eles terem decidido elevar a sua exposição, quase à força, para se equiparar à da NOS. São dezenas de instagrammers, com um (ou mais) fotógrafos concertados com a ação a acompanhá-los, que estão a inundar o instagram com Sagres. É uma espécie de Instagram awareness hacking: a maioria das pessoas está a postar sobre a NOS mas uma minoria, com um agregado de seguidores muito maior que a maioria, posta sobre a Sagres. Eu tenho visto mais Sagres no instagram do que NOS. Ideia bastante interessante da Sagres.

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